O Editor do Livro de Jó
Moisés foi o editor do livro de Jó e seu público inicial era a geração de israelitas, que recebiam agora toda a Lei escrita e o primeiro dos livros históricos foi o relato de Jó.
Em termos de inspiração e edição,
o concílio celestial, o grande conflito e a teodicéia (vindicação do caráter de
Deus) essas revelações são dadas a Moisés e sua geração.
Moisés quando escreveu o livro de
Jó, fez isso na terra de Midiã. A cultura e história desse livro eram do
“Oriente” (Jó 1:2 - Terra de Uz), mas a mente que recebeu a revelação era
hebraica.
Os quatro amigos de Jó
provavelmente eram da mesma região - Mesopotâmia, Assíria, Babilônia, Elão,
Média, Pérsia e os desertos da Arábia.
Toda a cultura religiosa,
tradição oral, e teologia conceitual da época, eram do oriente, sendo Moisés o
hebreu com herança intelectual da aliança abraâmica.
Midiã, onde Moisés estava, e
recebeu as revelações para a Lei e o Livro de Jó, ele estava na periferia
meridional do que hoje chamamos de Antigo Oriente Próximo, porém, culturalmente
fazia parte do mesmo mundo oriental retratado no livro de Jó. Essa observação é
muito importante para compreender por que Moisés provavelmente conhecia tão bem
essa tradição.
O que era "o Oriente"
para Moisés?
Na época de Moisés (século XV ou
XIII aC, conforme a cronologia adotada), "Oriente" não era um
conceito político, mas geográfico e cultural.
Os hebreus chamavam de qedem
("oriente", "leste") as terras situadas a leste e sudeste
de Canaã, incluindo. O ponto de referencia era a Terra Prometida. Esse oriente envolvia
as terras de Arã; Mesopotâmia; o deserto sírio; Edom; Midiã; parte da Arábia
setentrional. Assim, Midiã fazia parte do universo dos "filhos do
Oriente", ainda que estivesse mais ao sul do que Uz, Temã ou Suá.
Onde ficava Midiã?
Midiã ocupava aproximadamente o
noroeste da Arábia Saudita; a costa oriental do golfo de Ácaba; partes do sul
da Jordânia; possivelmente regiões do Sinai oriental. Era uma área de intenso
trânsito de caravanas. Ali passavam rotas comerciais que ligavam: Egito; Canaã;
Edom; Arábia; Mesopotâmia. Midiã não era um lugar isolado. Era um ponto de
encontro de culturas. Os midianitas eram parentes de Abraão; segundo Gênesis
25, Midiã era filho de Abraão e Quetura, sua segunda mulher, após a morte de
Sara.
Portanto israelitas; midianitas; descendentes
de Suá (Bildade); edomitas (Temã) eram povos
aparentados. Compartilhavam tradições
patriarcais; língua semelhante; costumes próximos; conhecimento do Deus
verdadeiro, ainda que com diferentes graus de preservação, mas não estavam
dentro da aliança com Yahweh, como os israelitas. Estavam fora por escolha
própria, pois poderiam seguir suas leis e religião, mas prefiriram a cultura e
religiões pagãs.
Isso explica por que Jetro,
sacerdote de Midiã, oferece sacrifícios a Yahweh em Êxodo 18.
Jó pertence exatamente a esse
mesmo universo. Os personagens do livro de Jó parecem formar um círculo de
sábios do Oriente.
A distribuição dos personagens do
livro de Jó
Jó → Terra de Uz (provavelmente
entre Edom, norte da Arábia e sul da Síria).
Elifaz → Temã (Edom).
Bildade → Suá (descendentes de
Abraão, provavelmente Arábia setentrional).
Zofar → Naamá (provavelmente
Arábia oriental ou Transjordânia).
Eliú → descendente de Buz (Gn
22:21), também ligado à Arã e ao norte da Arábia.
Perceba que nenhum deles é
israelita. Todos pertencem ao grande mundo semita oriental. Moisés viveu
quarenta anos exatamente nesse ambiente Essa observação é extraordinária.
Segundo Êxodo, Moisés vive
aproximadamente quarenta anos no Egito; quarenta anos em Midiã; quarenta anos
conduzindo Israel. Durante os quarenta anos em Midiã, ele viveu justamente
entre povos, descendentes de Abraão; conhecedores de antigas tradições
patriarcicais; cuja literatura sapiencial circulava naquela região.
Isso explica por que muitos
estudiosos, inclusive adventistas, entendem que Moisés teve contato com a
tradição de Jó enquanto vivia em Midiã.
Embora não seja possível provar
onde Moisés escreveu Jó, Midiã oferece um contexto geográfico e cultural muito
plausível. Ele recebeu suas visões e revelações nos desertos de Midiã.
A linguagem do livro confirma
esse ambiente. O hebraico de Jó contém um número extraordinário de palavras árabes
e aramaicas do antigo Oriente. Diversos especialistas, como David J. A. Clines
e John E. Hartley, destacam que o livro preserva um vocabulário muito
característico das regiões desérticas do Oriente.
Há descrições detalhadas de
caravanas; mineração; criação de camelos; tempestades do deserto; animais
típicos da Arábia. Tudo isso combina muito bem com a experiência de Moisés em
Midiã.
A sabedoria do Oriente
Outro detalhe interessante é que
a Bíblia frequentemente associa o Oriente à sabedoria. Por exemplo: "A
sabedoria de Salomão excedia a sabedoria de todos os filhos do Oriente..."
(1Rs 4:30). Essa expressão mostra que o Oriente era reconhecido como um grande
centro de tradição sapiencial.
O livro de Jó representa
exatamente esse tipo de literatura. Uma hipótese muito interessante. Alguns
estudiosos observam uma coincidência notável. Moisés passou quarenta anos
convivendo com descendentes de Abraão; sacerdotes como Jetro; caravanas vindas de Uz, Edom, Arã e
Mesopotâmia. Se Jó já existia como tradição oral ou escrita naquela época, Midiã
era um dos lugares mais prováveis para Moisés conhecê-la.
Isso explicaria por que o livro
não menciona Israel; por que não cita a Lei de Moisés; por que preserva um
ambiente totalmente patriarcal; por que seus personagens pertencem ao mesmo
universo cultural encontrado ao redor de Midiã. E talvez as cenas do capítulo 1
e 2, tenham sido reveladas somente a Moisés, pois Jó, Elifaz, Bildade, Zofar e
Eliú desconhecem conceitos como Satanás, o Grande Conflito e a Teodicéia em
torno do caráter de Deus.
Conclusão
Embora Midiã não estivesse no
coração da Mesopotâmia, ela fazia parte do mesmo mundo cultural do Antigo
Oriente Próximo. Situada na extremidade sudoeste desse universo, era um
importante ponto de encontro entre a Arábia, Edom, Canaã e as rotas que levavam
à Mesopotâmia.
Assim, é bastante plausível que
Moisés, durante seus quarenta anos em Midiã, tenha tido contato direto com as
tradições sapienciais orientais que formam o pano de fundo do livro de Jó.
Nesse cenário, Jó, Elifaz, Bildade, Zofar, Eliú, Jetro e os próprios midianitas
pertencem ao mesmo grande universo semítico oriental: povos aparentados,
ligados por antigas tradições patriarcais, por rotas comerciais comuns e por um
conhecimento compartilhado do Deus dos patriarcas, muito antes da formação da
nação de Israel.


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