Mas essa não é a pergunta central
do livro. O verdadeiro tema de Jó é outro: quem pode declarar um ser humano
justo?
Essa questão aparece desde os
primeiros versículos e atravessa toda a narrativa até o capítulo final. O
sofrimento é apenas o palco onde ocorre um dos maiores debates teológicos das
Escrituras: a natureza da justiça diante de Deus.
Elifaz, o amigo mais experiente, e o primeiro a falar nos
discursos, é ele que faz o questionamento – “Pode um ser mortal ser
perfeitamente justo diante de Deus? Pode o ser humano se conservar puro em seus
caminhos sob o olhar do Criador?” 4:17. Mas Elifaz questionava a justiça
declarada a Jó, e a postura desse patriarca em se considerar justo.
O próprio Jó faz a mesma pergunta – “pode o mortal ser justo
diante de Deus?” 9:2.
Bildade, outro amigo de Jó também faz o mesmo questionamento
– “Assim, como entao pode o ser humano ser justo diante de Deus? Como pode ser
puro quem nasce de mulher?” 25:4.
A Ocorrência do Termo Justo
Curiosamente, o termo
"justo" e seus derivados aparecem repetidamente no livro (17 vezes na KJV). A justiça é
afirmada, negada, defendida, questionada e, finalmente, confirmada pelo próprio
Deus. Não é exagero afirmar que Jó é um dos mais profundos tratados bíblicos
sobre a justiça concedida por Deus aos seres humanos.
O livro começa de maneira
surpreendente. Antes que Jó diga uma única palavra, antes que Satanás apareça,
antes que qualquer sofrimento aconteça, Deus já apresenta Seu julgamento sobre
o patriarca. "Havia um homem na terra de Uz, cujo nome era Jó; homem
íntegro e justo, temente a Deus e que se desviava do mal." (Jó 1:1)
O primeiro veredito não vem dos
homens; é declarado três vezes sobre Jó (1:1, 8; 2:3). O leitor tem consciência
que Jó é justo, mas os personagens do drama não o sabem; Jó porém ‘vive pela fé’
(Hc 2:4) e aceita que é justo diante de Deus.
Pouco depois, o próprio Senhor
repete essa avaliação diante de Satanás: "Observaste o meu servo Jó?
Porque ninguém há na terra semelhante a ele, homem íntegro e justo, temente a
Deus e que se desvia do mal." (Jó 1:8; cf. 2:3)
Esse detalhe muda completamente a
leitura do livro. O leitor já conhece o veredito divino antes de toda a
discussão começar. A narrativa não pretende descobrir se Jó é justo. Deus já
respondeu essa pergunta.
O conflito passa a ser outro: essa justiça permanecerá verdadeira quando a vida deixar de fazer sentido? John E. Hartley observa, em seu comentário do livro de Jó (NICOT), que a declaração inicial de Deus funciona como a chave interpretativa de toda a obra. O leitor possui uma informação que os personagens da história desconhecem: Deus já aprovou Jó antes de qualquer prova. Essa perspectiva impede que o sofrimento seja interpretado como evidência automática de culpa.
A Acusação
Satanás não acusa apenas Jó. Muitas
vezes imaginamos que Satanás esteja interessado apenas em destruir a vida de um
homem. Na realidade, sua acusação é muito mais profunda. Ele questiona o
próprio julgamento de Deus. "Porventura Jó teme a Deus, sem outras
intenções?" (Jó 1:9 KJV).
Em outras palavras, Satanás
sugere que Deus avaliou Jó de maneira equivocada. E que o patriarca não era o
que Deus esperava que fosse; Jó fingia porque tinha outros interesses.
Segundo o acusador, a justiça
humana é apenas uma aparência sustentada pelas bênçãos divinas. Retirem-se a
prosperidade, a saúde e a proteção, e desaparecerá também a fidelidade.
O alvo da acusação não é apenas
Jó. É a própria possibilidade de existir um relacionamento sincero entre Deus e
o ser humano. David J. A. Clines, em seu comentário da série Word Biblical
Commentary, observa que o livro inteiro gira em torno dessa pergunta: existe
uma piedade genuína que não dependa das recompensas materiais?
A teologia dos amigos: o
sofrimento prova a culpa
Quando entram em cena, Elifaz,
Bildade, Zofar e Eliú, parecem consoladores. Entretanto, à medida que o diálogo
avança, tornam-se promotores de uma rígida teologia da retribuição.
Para eles, Deus governa o
universo mediante uma regra simples: O justo prospera. O ímpio sofre. Logo, se
alguém sofre intensamente, necessariamente deve ter cometido pecados graves. Essa
lógica aparece repetidas vezes.
Elifaz pergunta: "Quem
jamais pereceu sendo inocente?" (Jó 4:7). Pouco antes ele havia afirmado: "Seria
porventura o homem mais justo do que Deus?" (Jó 4:17).
Bildade reforça o mesmo
pensamento: "Eis que Deus não rejeita ao íntegro." (Jó 8:20). Mais
tarde, Elifaz volta a questionar: "Que é o homem para que seja puro? E o
que nasce de mulher para ser justo?" (Jó 15:14). No terceiro ciclo de
discursos, ele chega a perguntar ironicamente: "Acaso é do interesse do
Todo-Poderoso que sejas justo?" (Jó 22:3).
Bildade conclui de forma
semelhante: "Como, pois, seria justo o homem perante Deus?" (Jó
25:4). À primeira vista, essas afirmações parecem profundamente espirituais. O
problema não está nas frases isoladas. Está na aplicação que fazem delas. Eles
transformam princípios verdadeiros em acusações falsas.
O Comentário Bíblico Andrews
destaca que o erro fundamental dos amigos não consiste em reconhecer que Deus é
justo, mas em concluir que todo sofrimento individual é uma punição direta por
pecados específicos. O livro inteiro foi escrito para desmontar essa conclusão
simplista.
Jó Não Reivindica Perfeição, Mas Integridade
À medida que os discursos
avançam, Jó passa a defender sua justiça. Isso pode causar estranheza ao leitor
moderno. Seria orgulho? Seria justiça própria? Uma leitura cuidadosa mostra que
não é nada disso. Era o justo Jó, vivendo pela fé.
Jó jamais afirma ser um homem sem
pecado. O que ele rejeita é a acusação de viver uma vida hipócrita. Em Jó 27:6
declara: "À minha justiça me apegarei e não a largarei." Em Jó 34:5
lemos sua afirmação registrada por Eliú: "Sou justo, e Deus tirou o meu
direito." Sua defesa não é de impecabilidade. É de integridade.
Francis Andersen, em seu
comentário da série Tyndale Old Testament Commentaries, observa que Jó
distingue cuidadosamente entre reconhecer sua condição humana e admitir crimes
que jamais cometeu. O patriarca recusa fazer uma falsa confissão apenas para satisfazer
a lógica de seus amigos.
Essa postura transforma Jó em uma
figura extraordinária. Ele prefere permanecer diante de Deus com perguntas
sinceras do que apresentar um arrependimento fingido.
O tribunal Invisível
Ao longo do livro, a linguagem
jurídica aparece continuamente. Jó deseja apresentar sua causa. Procura um
árbitro. Pede um mediador. Anseia por um Redentor que defenda seu direito. Seu
vocabulário lembra um tribunal. Não é coincidência. O livro inteiro está
estruturado como um grande julgamento.
Mas há uma diferença importante. Enquanto
os amigos acreditam que o julgamento já terminou — e que o sofrimento prova a
culpa — Jó insiste que o verdadeiro julgamento ainda pertence a Deus. Ele sabe
que somente o Juiz do universo pode emitir a sentença final.
Essa esperança atinge seu ponto
mais elevado quando declara: "Eu sei que o meu Redentor vive." (Jó
19:25). Sua confiança deixa de repousar em sua capacidade de convencer os
amigos. Ela passa a repousar naquele que conhece perfeitamente o coração
humano.
Deus muda completamente a direção
do debate
Quando Deus finalmente fala,
muitos esperam uma lista dos pecados secretos de Jó. Ela nunca aparece. Também
não aparece uma confirmação das acusações feitas pelos amigos. O Senhor conduz
Jó por uma viagem através da criação, revelando a complexidade do universo e os
limites da compreensão humana.
Ao final, vem o surpreendente
veredito: "Não dissestes de mim o que era reto, como o meu servo Jó."
(Jó 42:7). Essas palavras encerram quarenta capítulos de discussão. Os amigos,
que julgavam defender a justiça divina, são repreendidos.
Jó, que tantas vezes questionou
sem compreender, é reconhecido como aquele que falou corretamente acerca de
Deus. John Walton observa, em seu comentário da série NIV Application
Commentary, que o livro não procura responder todas as perguntas sobre o
sofrimento, mas corrigir uma compreensão equivocada da justiça divina. Deus não
está preso a uma fórmula matemática de recompensa e castigo.
A Justiça Nasce Do Veredito de
Deus
O livro de Jó termina exatamente
como começou. No início, Deus declara Jó justo. No final, Deus confirma
publicamente essa avaliação. Durante todo o caminho, as vozes humanas tentaram
substituir o julgamento divino.
Satanás disse que a justiça de Jó
era interesseira. Os amigos disseram que ela nunca existiu. A sociedade
provavelmente passou a enxergar o patriarca como um homem castigado por Deus. Mas
o céu jamais alterou seu veredito. Essa talvez seja a maior lição do livro.
A verdadeira justiça não nasce da
prosperidade, da opinião pública ou da ausência de sofrimento. Ela nasce do
julgamento daquele que conhece perfeitamente o coração.
Séculos depois, essa mesma
verdade alcançaria sua expressão mais completa quando o apóstolo Paulo escreveu
que Deus é aquele que "justifica o ímpio" mediante a fé. O livro de
Jó ainda não desenvolve plenamente essa doutrina, mas prepara o terreno ao
mostrar que a palavra final sobre a justiça de um ser humano pertence
exclusivamente a Deus.
Entre as cinzas de Uz nasce uma
das mais belas mensagens das Escrituras: o sofrimento pode confundir os homens,
mas jamais altera o veredito do Céu. A justiça verdadeira não depende das
circunstâncias; depende daquele que julga com perfeita sabedoria, perfeita
verdade e perfeita graça.
Conclusão
Deus declara seus filhos, os que
creem Nele, como justos. E temos de viver nesse mundo, por vezes como Jó,
sofrendo, mas seguindo crendo que somos justos.
Deus nos declarou justos (Rm 5:1).
Vivamos crendo assim. Deus nos trata como pessoas justas. E o Deus Espírito nos
transforma em pessoas justas, inserindo sua justiça, comunicando as virtudes (Gl
5:22,23) para sermos verdadeiramente justos.
Creia nisso. Isso é justificação
pela fé.

Toppppp. Tenho aprendido muito sobre Jó
ResponderExcluirMuito boa reflexão. Esclarecedora. Traz esperança ao pecador!
ResponderExcluirMaravilhoso esclarecimento, sobre o livro de Jó,confesso que fiquei constrangida por tamanho amor de Deus, por um homem de fé, que levou seu relacionamento com seu Deus ao lugar mais secreto de sua alma, espírito,e fidelidade.
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