Informações desconhecidas
O narrador do livro de Jó conhece
Satanás e revela sua atuação ao leitor (Jó 1–2), mas Jó e seus amigos parecem
não ter acesso a essa informação.
O próprio Jó atribui seu
sofrimento apenas a Deus, e não a outro ser qualquer – “as flechas do
Todo-Poderoso estão cravadas em mim, e o meu espírito sorve o veneno delas; os
terrores de Deus se armam contra mim” Jó 6:4. “Que fosse do agrado de Deus
esmagar-me, que soltasse a sua mão e acabasse comigo!” Jó 6:9. “Até quando não
desviarás de mim o teu olhar? Até quando não me darás tempo de engolir a minha
saliva? Se pequei, que mal fiz a ti, ó Espreitador da humanidade? Por que
fizeste de mim o teu alvo, tornando-me um peso para mim mesmo? Por que não
perdoas a minha transgressão e não tiras a minha iniquidade?” Jó 7:19-21. Essa
era a compreensão das pessoas na época, e o pouco conhecimento de Satanás como
causador do mal.
Essa diferença entre o
conhecimento do leitor e o conhecimento dos personagens é um dos principais
recursos literários do livro.
O prólogo do livro revela o que
Jó nunca vê
Nos capítulos 1 e 2, o leitor é
levado à corte celestial e presencia o diálogo entre Deus e Satanás. Jó, porém,
nunca participa dessa cena. Durante todo o restante do livro, ele procura
responder a uma pergunta: "Por que estou sofrendo?".
O leitor já conhece a resposta
imediata (a atuação de Satanás sob permissão divina), mas Jó não. Essa é uma
das grandes ironias dramáticas do livro. Jó atribui, em última instância, tudo
a Deus Como Jó desconhece a existência de um acusador atuando nos bastidores,
ele entende que Deus é o soberano absoluto sobre tudo o que acontece.
Por isso ele diz: "O Senhor
o deu, e o Senhor o tomou." (Jó 1:21). Também afirma: "Receberemos de
Deus o bem, e não receberíamos também o mal?" (Jó 2:10). E, em Jó 9:24,
declara: "Se não é ele, quem é, logo?" Essa frase mostra precisamente
o dilema de Jó. Ele não consegue explicar seu sofrimento. Mas também não
conhece outro agente responsável.
Jó conhece Satanás?
Não há nenhuma fala de Jó em que
ele demonstre conhecer Satanás como o personagem apresentado nos capítulos 1 e
2.
Em todo o livro, Jó menciona: Deus;
o Todo-Poderoso; a morte; o Sheol; homens maus; criaturas como Beemote e
Leviatã. Mas nunca identifica Satanás como responsável por seu sofrimento.
E os amigos? O mesmo acontece com
os quatro amigos. Elifaz, Bildade, Zofar e Eliú partem de uma única premissa: Deus
governa o mundo diretamente segundo a justiça retributiva. Para eles: Deus
recompensa o justo. Deus castiga o ímpio.
Como Jó sofre intensamente,
concluem: Jó deve ter pecado. Nenhum deles sugere: ação demoníaca; atuação de
Satanás; ou um conflito cósmico.
O termo "Satanás"
aparece fora do prólogo?
Não. O personagem הַשָּׂטָן
(haśśāṭān) aparece apenas em: Jó 1 e 2. Depois desaparece completamente. Nem
Deus volta a mencioná-lo quando responde a Jó. Nem Jó o menciona. Nem Elifaz, o
mais experiente. Nem os outros amigos. Isso é extremamente significativo.
O prólogo do livro fornece ao
leitor uma informação que permanece oculta aos personagens durante toda a
narrativa. O drama de Jó consiste justamente em buscar uma explicação sem
conhecer o conflito celestial descrito nos capítulos iniciais.
John Walton (NIVAC) também
destaca que a audiência possui conhecimento privilegiado que Jó jamais recebe. David
Clines (WBC) considera esse um dos recursos literários centrais do livro.
Existia o conceito de um ser
maligno no período?
Essa questão é mais ampla. No
Antigo Testamento anterior ao exílio, a figura de Satanás ainda aparece de
forma bastante limitada. Os textos principais são: Jó 1–2; Zacarias 3; 1
Crônicas 21:1. Mesmo nesses textos, Satanás aparece principalmente como: acusador;
adversário; opositor. A demonologia plenamente desenvolvida do Novo Testamento
ainda não está presente.
Jó desconhecia o Grande
Conflito?
Sob a perspectiva adventista,
essa resposta é particularmente interessante. O livro de Jó é considerado uma
das primeiras revelações do Grande Conflito. Mas essa revelação é dada ao
leitor. Mas não necessariamente a Jó.
Ellen White, em Patriarcas e
Profetas e especialmente em O Grande Conflito, utiliza Jó como exemplo da
controvérsia entre Cristo e Satanás. Entretanto, ela não afirma que Jó
compreendesse plenamente toda essa realidade durante sua experiência.
Ao contrário, sua perseverança é
ainda mais notável porque ele permaneceu fiel sem conhecer a causa invisível de
seu sofrimento.
O significado de Jó 9:24, quando
Jó pergunta: "Se não é ele, quem é, logo?" O patriarca está
expressando um profundo impasse teológico.
Sua lógica é: Deus é soberano.
Não conheço outro poder que governe o universo. Portanto, se isso está
acontecendo, Deus deve permitir ou determinar. Essa pergunta prepara uma das
grandes respostas do livro. No final, Deus não explica a Jó o papel de Satanás.
Em vez disso, revela Sua
soberania, sabedoria e governo sobre uma criação infinitamente mais complexa do
que Jó podia compreender.
Moisés - o editor e seu público
Em termos de inspiração e edição,
a concílio celestial, do grande conflito e teodicéia (vindicação do caráter de
Deus) essas revelações são dadas a Moisés e sua geração.
Moisés quando escreveu o livro de
Jó, fez isso na terra de Midiã. A cultura e história desse livro eram do
“Oriente” (Jó 1:2 - Terra de Uz).
Os quatro amigos de Jó
provavelmente eram da mesma região - Mesopotâmia, Assíria, Babilônia, Elão,
Média, Pérsia e os desertos da Arábia.
Toda a cultura religiosa,
tradição oral, e teologia conceitual da época, eram do oriente, sendo Moisés o
hebreu com herança intelectual e da aliança abraâmica.
Conclusão
Do ponto de vista da compreensão
do texto não existe nenhuma evidência de que Jó ou seus amigos conhecessem
Satanás como o personagem revelado ao leitor em Jó 1–2.
O conceito está presente no
prólogo, mas permanece oculto aos personagens da narrativa. Essa construção da
narrativa é intencional: o leitor sabe que existe um conflito celestial,
enquanto Jó interpreta seu sofrimento apenas à luz da soberania divina.
Isso torna perguntas como a de Jó
9:24 ainda mais dramáticas e faz do livro uma das primeiras grandes reflexões
bíblicas sobre o sofrimento do justo, muito antes da revelação mais completa do
conflito entre Deus e Satanás encontrada no restante das Escrituras.

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