domingo, 14 de dezembro de 2025

O CERIMONIAL COM A ÁGUA

                                     

1. Contexto literário e histórico

1 Samuel 7 descreve um ato de renovação nacional conduzido por Samuel, após um longo período de apostasia e dominação filisteia. “E ajuntaram-se em Mispa, e tiraram água, e a derramaram perante o Senhor; e jejuaram aquele dia, e disseram ali: Pecamos contra o Senhor.” 1 Samuel 7:6.  O cenário é Mispa, local de assembleia sagrada e julgamento (cf. Jz 20–21), onde Samuel atua como líder profético, não como sacerdote do tabernáculo.

O texto articula três ações distintas:

1. derramento de água perante YHWH

2. jejum

3. confissão verbal explícita (“Pecamos contra o Senhor”).

Essa sequência já indica que o derramamento de água não substitui nem simboliza a confissão, mas a acompanha como ato cerimonial.

 2. A natureza cultual da expressão “perante YHWH"

A fórmula hebraica ‘lip̄nê YHWH’ (“perante o Senhor”) é linguagem técnica cultual, usada para descrever atos realizados:

 em contexto sagrado

 com intenção de oferta

 sob reconhecimento da presença divina

Portanto, o gesto de “derramar água” não deve ser lido como mero simbolismo, mas como ação litúrgica consciente, inserida no repertório cultual israelita.

 3. Derramamento de água como libação extraordinária

A Torá descreve vários ritos regulares com água, e a libação (ofertas líquidas) eram uma delas. As libações líquidas eram categoria legítima e envolviam sangue, vinho, óleo e água. O derramamento ritual de água é descrito posteriormente formalizados no rito do nisûk hamáyim durante a Festa dos Tabernáculos. Isso é descrito no evangelho de João como comemoração da retirada de água da Pedra, o episódio do deserto, e que foi incorporado na Festa dos Tabernáculos.

O livro DTN relata esse ritual com água assim – “Quando Jesus falava no pátio do templo, o povo achava-se como fascinado... Dia após dia ensinou Ele ao povo, até o último dia da festa, "o grande dia da festa". A manhã desse dia encontrou a multidão fatigada do longo período de festividades. De repente, Jesus ergueu a voz, em acentos que retumbaram através dos pátios do templo:

"Se alguém tem sede, venha a Mim, e beba. Quem crê em Mim, como diz a Escritura, rios de água viva correrão de seu ventre." João 7:37. O estado do povo tornou esse apelo deveras eficaz. Estiveram eles empenhados em contínua cena de pompa e festividade, os olhos ofuscados com luzes e cores, e os ouvidos deleitados com a mais preciosa música; nada, porém, houvera em toda essa série de cerimônias para satisfazer as necessidades do espírito, nada para saciar a sede da alma por aquilo que é imperecível. Jesus os convidava a ir beber da nascente da vida, daquela que se tornaria neles uma fonte que salta para a vida eterna.

O sacerdote havia, naquela manhã, realizado a cerimônia que comemorava o ferir da rocha no deserto. Essa rocha era um símbolo dAquele que, por Sua morte, havia de fazer com que brotassem vivas correntes de salvação para todos os sedentos. As palavras de Cristo eram a água da vida. Ali, em presença da reunida multidão, Ele Se pôs à tarde para ser ferido, a fim de que água da vida pudesse brotar para o mundo. Ferindo a Cristo, Satanás pensava destruir o Príncipe da vida; mas da ferida rocha correu água viva”. Livro o Desejado de Todas as Nações - Pags. 453 e 454.

À luz disso, o gesto de 1 Samuel 7:6 pode ser entendido como:

Um ritual previsto na Lei com o uso de água

uma libação, oferta líquida

 um rito realizado fora do altar central, no tabernáculo

 conduzida por autoridade sacerdotal e profética (Samuel)

 apropriada a um momento de reavivamento e reforma da congregação

Não se trata de um inovação ritual, mas de uso legítimo de uma forma cultual conhecida: derramar um líquido perante YHWH como oferta.

 4. Relação com confissão e jejum

O texto é claro ao distinguir os elementos:

 a confissão é verbal (“disseram ali: Pecamos contra o Senhor”);

 o jejum expressa humilhação;

 o derramamento de água expressa entrega cultual, não expiação.

Assim, o ato:

 não representa juridicamente o pecado,

 não possui função expiatória,

 não substitui sacrifício.

Ele funciona como ato de consagração e reconhecimento da soberania divina, coerente com o padrão das libações.

 5. Mispa e a liturgia ritual

O fato de o rito ocorrer em Mispa, e não no tabernáculo, não o torna ilegítimo.

O Antigo Testamento conhece liturgias excepcionais conduzidas por profetas (cf. Elias no Carmelo – 1 Reis 18), também ofereceu um derramamento de água antes de executar o sacrifício principal especialmente em momentos de;

 crise

ruptura da aliança,

 necessidade de restauração nacional.

Em tais contextos, o culto não abandona a lógica cerimonial, mas a adapta legitimamente, sem criar novos dogmas rituais.

 6. Sentido teológico do ritual

À luz da pesquisa cultual comparativa, a frase “derramaram água perante o Senhor” significa:

 um ato litúrgico real, não meramente simbólico;

 uma libação líquida, paralela às libações conhecidas na tradição israelita;

 uma oferta que acompanha confissão e jejum, mas não os substitui;

 uma expressão de renúncia ao uso próprio e entrega da vida a Deus.

A água, elemento vital, é devolvida a YHWH como reconhecimento de que a restauração de Israel depende exclusivamente Dele.

 7. Síntese conclusiva

Em 1 Samuel 7:6, o derramamento de água não deve ser interpretado como um rito de confissão inexistente na Torá, mas como uma libação, coerente com práticas cultuais israelitas conhecidas e posteriormente formalizadas no nisûk hamáyim, a cerimonia que relembrava a água provida no deserto, pelo ferir da Rocha, representando Cristo. O gesto ocorre em contexto penitencial, mas sua natureza é cultual e consagracional, não expiatória ou simbólico.

Desse modo, o texto preserva:

 a integridade do cerimonial da Torá,

 a distinção entre confissão verbal e ato litúrgico,

 e a autoridade profética de Samuel em conduzir uma renovação nacional legítima diante de YHWH.

8. Aplicação Espiritual

As libações e os rituais com água apontavam para o Dom do Espírito Santo. A purificação que o Deus Espírito oferece aos crentes. Hoje o batismo e a cerimônia do Lava-Pés remetem a esses simbolismos com a água e que te o objetivo de manter diante do crente a lembrança o "lavar regenerador do Espírito" Tito 3:5.

Nenhum comentário:

Postar um comentário