1. Contexto literário e histórico
1 Samuel 7 descreve um ato de renovação nacional conduzido
por Samuel, após um longo período de apostasia e dominação filisteia. “E
ajuntaram-se em Mispa, e tiraram água, e a derramaram perante o Senhor; e
jejuaram aquele dia, e disseram ali: Pecamos contra o Senhor.” 1 Samuel 7:6. O cenário é Mispa, local de assembleia sagrada
e julgamento (cf. Jz 20–21), onde Samuel atua como líder profético, não como
sacerdote do tabernáculo.
O texto articula três ações distintas:
1. derramento de água perante YHWH
2. jejum
3. confissão verbal explícita (“Pecamos contra o Senhor”).
Essa sequência já indica que o derramamento de água não
substitui nem simboliza a confissão, mas a acompanha como ato cerimonial.
2. A natureza cultual
da expressão “perante YHWH"
A fórmula hebraica ‘lip̄nê YHWH’ (“perante o Senhor”) é linguagem
técnica cultual, usada para descrever atos realizados:
em contexto sagrado
com intenção de
oferta
sob reconhecimento da
presença divina
Portanto, o gesto de “derramar água” não deve ser lido como
mero simbolismo, mas como ação litúrgica consciente, inserida no repertório
cultual israelita.
3. Derramamento de
água como libação extraordinária
A Torá descreve vários ritos regulares com água, e a libação
(ofertas líquidas) eram uma delas. As libações líquidas eram categoria legítima
e envolviam sangue, vinho, óleo e água. O derramamento ritual de água é
descrito posteriormente formalizados no rito do nisûk hamáyim durante a Festa
dos Tabernáculos. Isso é descrito no evangelho de João como comemoração da
retirada de água da Pedra, o episódio do deserto, e que foi incorporado na
Festa dos Tabernáculos.
O livro DTN relata esse ritual com água assim – “Quando
Jesus falava no pátio do templo, o povo achava-se como fascinado... Dia após
dia ensinou Ele ao povo, até o último dia da festa, "o grande dia da
festa". A manhã desse dia encontrou a multidão fatigada do longo período
de festividades. De repente, Jesus ergueu a voz, em acentos que retumbaram
através dos pátios do templo:
"Se alguém tem sede, venha a Mim, e beba. Quem crê em
Mim, como diz a Escritura, rios de água viva correrão de seu ventre." João
7:37. O estado do povo tornou esse apelo deveras eficaz. Estiveram eles
empenhados em contínua cena de pompa e festividade, os olhos ofuscados com
luzes e cores, e os ouvidos deleitados com a mais preciosa música; nada, porém,
houvera em toda essa série de cerimônias para satisfazer as necessidades do
espírito, nada para saciar a sede da alma por aquilo que é imperecível. Jesus os
convidava a ir beber da nascente da vida, daquela que se tornaria neles uma
fonte que salta para a vida eterna.
O sacerdote havia, naquela manhã, realizado a cerimônia que
comemorava o ferir da rocha no deserto. Essa rocha era um símbolo dAquele que,
por Sua morte, havia de fazer com que brotassem vivas correntes de salvação
para todos os sedentos. As palavras de Cristo eram a água da vida. Ali, em
presença da reunida multidão, Ele Se pôs à tarde para ser ferido, a fim de que
água da vida pudesse brotar para o mundo. Ferindo a Cristo, Satanás pensava
destruir o Príncipe da vida; mas da ferida rocha correu água viva”. Livro
o Desejado de Todas as Nações - Pags. 453 e 454.
À luz disso, o gesto de 1 Samuel 7:6 pode ser entendido
como:
Um ritual previsto na Lei com o uso de água
uma libação, oferta líquida
um rito realizado
fora do altar central, no tabernáculo
conduzida por
autoridade sacerdotal e profética (Samuel)
apropriada a um
momento de reavivamento e reforma da congregação
Não se trata de um inovação ritual, mas de uso legítimo de
uma forma cultual conhecida: derramar um líquido perante YHWH como oferta.
4. Relação com
confissão e jejum
O texto é claro ao distinguir os elementos:
a confissão é verbal
(“disseram ali: Pecamos contra o Senhor”);
o jejum expressa
humilhação;
o derramamento de
água expressa entrega cultual, não expiação.
Assim, o ato:
não representa
juridicamente o pecado,
não possui função
expiatória,
não substitui
sacrifício.
Ele funciona como ato de consagração e reconhecimento da
soberania divina, coerente com o padrão das libações.
5. Mispa e a liturgia
ritual
O fato de o rito ocorrer em Mispa, e não no tabernáculo, não
o torna ilegítimo.
O Antigo Testamento conhece liturgias excepcionais
conduzidas por profetas (cf. Elias no Carmelo – 1 Reis 18), também ofereceu um
derramamento de água antes de executar o sacrifício principal especialmente em
momentos de;
crise
ruptura da aliança,
necessidade de
restauração nacional.
Em tais contextos, o culto não abandona a lógica cerimonial,
mas a adapta legitimamente, sem criar novos dogmas rituais.
6. Sentido teológico
do ritual
À luz da pesquisa cultual comparativa, a frase “derramaram
água perante o Senhor” significa:
um ato litúrgico real,
não meramente simbólico;
uma libação líquida,
paralela às libações conhecidas na tradição israelita;
uma oferta que
acompanha confissão e jejum, mas não os substitui;
uma expressão de renúncia
ao uso próprio e entrega da vida a Deus.
A água, elemento vital, é devolvida a YHWH como
reconhecimento de que a restauração de Israel depende exclusivamente Dele.
7. Síntese conclusiva
Em 1 Samuel 7:6, o derramamento de água não deve ser
interpretado como um rito de confissão inexistente na Torá, mas como uma libação,
coerente com práticas cultuais israelitas conhecidas e posteriormente
formalizadas no nisûk hamáyim, a cerimonia que relembrava a água provida no
deserto, pelo ferir da Rocha, representando Cristo. O gesto ocorre em contexto
penitencial, mas sua natureza é cultual e consagracional, não expiatória ou
simbólico.
Desse modo, o texto preserva:
a integridade do
cerimonial da Torá,
a distinção entre
confissão verbal e ato litúrgico,
e a autoridade
profética de Samuel em conduzir uma renovação nacional legítima diante de YHWH.
8. Aplicação Espiritual
As libações e os rituais com água apontavam para o Dom do Espírito Santo. A purificação que o Deus Espírito oferece aos crentes. Hoje o batismo e a cerimônia do Lava-Pés remetem a esses simbolismos com a água e que te o objetivo de manter diante do crente a lembrança o "lavar regenerador do Espírito" Tito 3:5.

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