sábado, 13 de dezembro de 2025

A RELIGIÃO DE DAGOM

A divindade conhecida como Dagom ocupa um lugar relevante no cenário religioso do Antigo Oriente Próximo e aparece de forma significativa na narrativa bíblica, especialmente associada aos filisteus. Seu culto antecede o período bíblico e revela conexões profundas com a agricultura, a fertilidade e a estrutura religiosa das cidades costeiras e mesopotâmicas. A análise de Dagom exige uma abordagem interdisciplinar, unindo fontes textuais antigas, achados arqueológicos e interpretação teológica.

A origem do nome Dagom


O nome Dagom (hebraico: דָּגוֹן) está ligado à raiz semítica dgn, amplamente reconhecida em textos ugaríticos, acadianos e hebraicos como referência a “grão” ou “cereal”. Essa etimologia é sustentada por estudiosos como W. F. AlbrightMark S. Smith e John Day, que argumentam que Dagom era originalmente um deus agrícola, ligado à fertilidade da terra e à produção de alimentos.


A interpretação popular de Dagom como um “deus-peixe” surgiu mais tardiamente, influenciada por associações linguísticas equivocadas com a palavra hebraica dag (“peixe”) e por representações artísticas neoassírias de divindades híbridas. No entanto, a evidência textual mais antiga aponta fortemente para um deus da colheita, e não das águas.


Dagom na Mesopotâmia e em Ugarite


Antes de seu culto entre os filisteus, Dagom já era venerado na Mesopotâmia. Textos do terceiro milênio a.C., especialmente de Ebla (Tell Mardikh, Síria), mencionam Dagom como uma das principais divindades do panteão local. Em Ebla, Dagom aparece como deus supremo, acima até de outras divindades conhecidas, recebendo templos, sacerdotes e grandes ofertas.


Em Ugarite, embora Baal ocupe posição central nos mitos preservados, Dagom é citado como pai de Baal em algumas tradições, o que reforça sua associação com fertilidade, provisão e sustentação da vida. Essa relação hierárquica sugere que Dagom representava uma divindade mais antiga, ligada ao sustento básico da sociedade agrícola.


Dagom entre os filisteus


No contexto bíblico, Dagom é apresentado como o principal deus dos filisteus, especialmente nas cidades de Asdode, Gaza e Bete-Seã. A Bíblia menciona templos dedicados a Dagom e sacerdotes responsáveis por seu culto, indicando uma estrutura religiosa organizada (1 Samuel 5; Juízes 16:23).


Os filisteus, embora de provável origem egeia, rapidamente assimilaram elementos religiosos cananeus e semíticos locais. Dagom, portanto, foi incorporado como uma divindade central, possivelmente por sua ligação com prosperidade agrícola e estabilidade econômica, essenciais para um povo estabelecido em planícies férteis.


O episódio da Arca da Aliança e a teologia bíblica


O relato mais conhecido envolvendo Dagom encontra-se em 1 Samuel 5, quando a Arca da Aliança é levada ao templo de Dagom em Asdode. O texto descreve Dagom caindo diante da Arca, com a cabeça e as mãos quebradas, permanecendo apenas o tronco.


Do ponto de vista teológico, o episódio não é apenas narrativo, mas polemizante. Conforme destacado por estudiosos como John Walton e Tremper Longman III, o texto segue um padrão típico de “conflito entre divindades”, comum no Antigo Oriente, mas subvertido: não há combate direto; o Deus de Israel vence simplesmente por sua presença.


A decapitação e mutilação da imagem de Dagom simbolizam a total deslegitimação de sua autoridade, pois cabeça e mãos representam sabedoria e poder. O texto afirma, assim, a supremacia absoluta de YHWH sobre qualquer divindade territorial ou nacional.


Dagom e o culto sacrificial


Textos bíblicos e extrabíblicos indicam que o culto a Dagom envolvia sacrifícios, festas religiosas e oferendas votivas. Em Juízes 16:23, os filisteus oferecem um grande sacrifício a Dagom para celebrar a captura de Sansão, interpretando o evento como vitória concedida por seu deus.


Esse padrão reflete a lógica religiosa comum do mundo antigo: deuses eram vistos como patronos militares e econômicos, responsáveis pelo sucesso ou fracasso de uma nação. A teologia bíblica confronta diretamente essa ideia ao demonstrar que Dagom não pôde proteger seus adoradores nem impedir o juízo divino.


Evidências arqueológicas


Escavações em cidades filisteias como Asdode, Gaza e Tel Qasile revelaram estruturas templárias que se alinham com descrições bíblicas de santuários. Embora não haja inscrições diretas nomeando Dagom nesses locais, a tipologia dos templos, aliada às fontes textuais, reforça a plausibilidade histórica de seu culto.


Além disso, inscrições mesopotâmicas e sírias confirmam a longa duração e ampla difusão do culto a Dagom, especialmente antes do primeiro milênio a.C. Essas evidências arqueológicas corroboram a visão bíblica de que Dagom era uma divindade real e amplamente venerada, não uma figura mítica inventada.


Declínio do culto e significado histórico-teológico


Com o avanço das potências assíria e babilônica, e posteriormente com a helenização da região, o culto a Dagom perdeu proeminência, sendo absorvido ou substituído por outras divindades. No entanto, sua memória permaneceu preservada nos textos bíblicos como símbolo do confronto entre a fé de Israel e as religiões do entorno.


Teologicamente, Dagom representa a confiança humana em prosperidade, fertilidade e poder militar desvinculados da obediência a Deus. A narrativa bíblica não apenas registra sua existência, mas a utiliza para afirmar que nenhum deus criado pode resistir à soberania do Senhor da aliança.


Conclusão


A religião de Dagom foi profundamente enraizada na cultura do Antigo Oriente Próximo, especialmente entre povos agrícolas e urbanos da Síria-Palestina. Longe de ser uma divindade menor, Dagom ocupou posição central em vários panteões antigos. Contudo, à luz da teologia bíblica, ele se torna um exemplo claro da fragilidade dos deuses nacionais diante do Deus vivo.


A arqueologia e a história confirmam sua importância; a Escritura interpreta seu significado. Juntas, essas disciplinas revelam que Dagom não é apenas um personagem antigo, mas um marco teológico na afirmação da soberania de Deus sobre todas as culturas, terras e crenças.

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