O nome Mispa (מִצְפָּה,
Miṣpāh) significa literalmente “torre de vigia” ou “lugar de observação”. No
Antigo Testamento, há mais de uma localidade chamada Mispa, mas a Mispa
relevante para 1 Samuel situa-se no território de Benjamim, provavelmente
identificada com Tell en-Naṣbeh, ao norte de Jerusalém.
Referência territorial: Em Josué 18:26 – Mispa listada entre
as cidades da tribo de Benjamim.
2. Mispa como lugar
de pacto e testemunho (período patriarcal)
O primeiro uso teológico do nome ocorre ainda no período
patriarcal, embora em outra região.
2.1. Mispa em Gileade
(distinta da benjaminita)
Gênesis 31:44–49 – Jacó e Labão erigem um memorial e chamam
o lugar de Mispa, como testemunha do pacto entre eles.
Embora não seja a mesma Mispa geográfica, este episódio
estabelece um campo semântico duradouro para o nome: Mispa como lugar de
vigilância divina, juramento e responsabilização diante de Deus.
3. Mispa como centro
de assembleia e juízo (período dos Juízes)
É no livro de Juízes que a Mispa benjaminita assume papel
central na vida nacional.
3.1. Assembleia
nacional para julgamento
Juízes 20:1–3 – “Congregou-se toda a congregação… em Mispa,
perante Yahweh”.
Aqui Mispa aparece como:
local de assembleia das tribos,
espaço de deliberação
jurídica e militar,
lugar reconhecido
como estando “perante Yahweh”.
3.2. Juramentos e
decisões irreversíveis
Juízes 21:1, 5 – O povo faz juramentos em Mispa relacionados
à crise da tribo de Benjamim.
Mispa funciona como:
tribunal nacional,
local onde juramentos têm peso irrevogável,
espaço de decisão com
consequências duradouras.
4. Mispa como centro
espiritual sob Samuel (transição juízes–monarquia)
4.1. Assembleia de
arrependimento nacional
1 Samuel 7:5–6 – Samuel convoca Israel a Mispa; ali ocorre
jejum, confissão e culto.
Mispa não é o local
do tabernáculo, mas funciona como local legítimo de culto nacional;
Samuel atua como juiz
e líder profético;
o texto afirma que os
atos foram realizados “perante Yahweh”.
4.2. Julgamento e liderança
1 Samuel 7:15–17 – Samuel julga Israel “todos os dias da sua
vida”, e Mispa aparece como um dos centros de sua atuação judicial.
Mispa consolida-se como:
centro
administrativo,
espaço de autoridade
espiritual,
local de liderança
nacional reconhecida.
5. Mispa e a
instituição da monarquia
5.1. Convocação
solene para escolha do rei
1 Samuel 10:17 –
“Samuel convocou o povo perante Yahweh, em Mispa”.
a escolha do rei
ocorre em assembleia nacional;
o local é
explicitamente descrito como estando “ao Senhor”;
o processo envolve sorteio
sagrado, não aclamação política espontânea.
5.2. Entronização de
Saul
1 Samuel 10:20–24 –
As tribos são apresentadas diante do Senhor; Saul é escolhido e apresentado ao
povo.
Mispa é o local adequado porque:
já era espaço de
pacto;
já funcionava como
tribunal nacional;
já estava associado à
presença e autoridade divina.
6. Mispa após a
monarquia unificada
6.1. Período
babilônico
Séculos depois, Mispa volta a aparecer como centro
administrativo.
2 Reis 25:23–25
Jeremias 40:6–10
Mispa torna-se:
sede do governo de
Gedalias;
centro administrativo
da província após a queda de Jerusalém.
Isso confirma sua importância estratégica e política ao
longo do tempo.
7. Síntese teológica
do papel de Mispa
Ao longo do Antigo Testamento, Mispa funciona como:
1. Lugar de pacto e testemunho (Gn 31)
2. Centro de assembleia nacional (Jz 20–21)
3. Tribunal e espaço de juramento (Jz 21)
4. Centro espiritual sob liderança profética (1Sm 7)
5. Local legítimo para a instituição da monarquia (1Sm 10)
6. Sede administrativa em tempos de crise nacional (2Rs 25;
Jr 40)
8. Conclusão
A escolha de Mispa como local da entronização de Saul em 1
Samuel 10:17 não é acidental. Ela reflete uma memória histórica e teológica
consolidada, segundo a qual Mispa era um espaço onde Israel se reunia perante o
Senhor para decidir questões irreversíveis de sua identidade nacional.
Assim, a monarquia nasce não em um palácio nem em um campo
de batalha, mas em um lugar de assembleia, juízo e submissão à autoridade
divina, coerente com todo o histórico bíblico de Mispa.

Nenhum comentário:
Postar um comentário