quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

A CIDADE DE MISPA

 1. Identidade e localização de Mispa

O nome Mispa (מִצְפָּה, Miṣpāh) significa literalmente “torre de vigia” ou “lugar de observação”. No Antigo Testamento, há mais de uma localidade chamada Mispa, mas a Mispa relevante para 1 Samuel situa-se no território de Benjamim, provavelmente identificada com Tell en-Naṣbeh, ao norte de Jerusalém.

Referência territorial: Em Josué 18:26 – Mispa listada entre as cidades da tribo de Benjamim.

 2. Mispa como lugar de pacto e testemunho (período patriarcal)

O primeiro uso teológico do nome ocorre ainda no período patriarcal, embora em outra região.

 2.1. Mispa em Gileade (distinta da benjaminita)

Gênesis 31:44–49 – Jacó e Labão erigem um memorial e chamam o lugar de Mispa, como testemunha do pacto entre eles.

Embora não seja a mesma Mispa geográfica, este episódio estabelece um campo semântico duradouro para o nome: Mispa como lugar de vigilância divina, juramento e responsabilização diante de Deus.

 3. Mispa como centro de assembleia e juízo (período dos Juízes)

É no livro de Juízes que a Mispa benjaminita assume papel central na vida nacional.

 3.1. Assembleia nacional para julgamento

Juízes 20:1–3 – “Congregou-se toda a congregação… em Mispa, perante Yahweh”.

Aqui Mispa aparece como:

local de assembleia das tribos,

 espaço de deliberação jurídica e militar,

 lugar reconhecido como estando “perante Yahweh”.

 3.2. Juramentos e decisões irreversíveis

Juízes 21:1, 5 – O povo faz juramentos em Mispa relacionados à crise da tribo de Benjamim.

Mispa funciona como:

tribunal nacional,

local onde juramentos têm peso irrevogável,

 espaço de decisão com consequências duradouras.

 4. Mispa como centro espiritual sob Samuel (transição juízes–monarquia)

 4.1. Assembleia de arrependimento nacional

1 Samuel 7:5–6 – Samuel convoca Israel a Mispa; ali ocorre jejum, confissão e culto.

 Mispa não é o local do tabernáculo, mas funciona como local legítimo de culto nacional;

 Samuel atua como juiz e líder profético;

 o texto afirma que os atos foram realizados “perante Yahweh”.

4.2. Julgamento e liderança

1 Samuel 7:15–17 – Samuel julga Israel “todos os dias da sua vida”, e Mispa aparece como um dos centros de sua atuação judicial.

Mispa consolida-se como:

 centro administrativo,

 espaço de autoridade espiritual,

 local de liderança nacional reconhecida.

 5. Mispa e a instituição da monarquia

 5.1. Convocação solene para escolha do rei

 1 Samuel 10:17 – “Samuel convocou o povo perante Yahweh, em Mispa”.

 a escolha do rei ocorre em assembleia nacional;

 o local é explicitamente descrito como estando “ao Senhor”;

 o processo envolve sorteio sagrado, não aclamação política espontânea.

 5.2. Entronização de Saul

 1 Samuel 10:20–24 – As tribos são apresentadas diante do Senhor; Saul é escolhido e apresentado ao povo.

Mispa é o local adequado porque:

 já era espaço de pacto;

 já funcionava como tribunal nacional;

 já estava associado à presença e autoridade divina.

 6. Mispa após a monarquia unificada

 6.1. Período babilônico

Séculos depois, Mispa volta a aparecer como centro administrativo.

 2 Reis 25:23–25

 Jeremias 40:6–10

Mispa torna-se:

 sede do governo de Gedalias;

 centro administrativo da província após a queda de Jerusalém.

Isso confirma sua importância estratégica e política ao longo do tempo.

 7. Síntese teológica do papel de Mispa

Ao longo do Antigo Testamento, Mispa funciona como:

1. Lugar de pacto e testemunho (Gn 31)

2. Centro de assembleia nacional (Jz 20–21)

3. Tribunal e espaço de juramento (Jz 21)

4. Centro espiritual sob liderança profética (1Sm 7)

5. Local legítimo para a instituição da monarquia (1Sm 10)

6. Sede administrativa em tempos de crise nacional (2Rs 25; Jr 40)

 8. Conclusão

A escolha de Mispa como local da entronização de Saul em 1 Samuel 10:17 não é acidental. Ela reflete uma memória histórica e teológica consolidada, segundo a qual Mispa era um espaço onde Israel se reunia perante o Senhor para decidir questões irreversíveis de sua identidade nacional.

Assim, a monarquia nasce não em um palácio nem em um campo de batalha, mas em um lugar de assembleia, juízo e submissão à autoridade divina, coerente com todo o histórico bíblico de Mispa.

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