sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

A HISTÓRIA BÍBLICA DA MONARQUIA EM ISRAEL

A monarquia era uma tensão entre a liderança Divina e a vontade do povo por um governo humano, como as demais nações possuíam (1Samuel 8:5,6).

A monarquia como movimento político tem uma linha histórica nas escrituras; vários eventos desde o patriarcado de Jacó e a ascensão de José ao governo do Egito, evocaram no povo o desejo de um governo, de um rei e por fim uma monarquia institucionalizada.

Isso era um movimento de várias tribos, o que levou ao choque entre aquelas que aspiravam o trono. A própria tribo de Efraim, descendência direta de José, era uma das que disputavam o trono em Israel.

Mas a tensão cresce quando as tribos esbarram na vontade de Yahweh que era o Rei Supremo na Teocracia; e mesmo ao ceder ao desejo do povo, Deus indicou o primeiro rei e substituiu as tribos de Efraim e Benjamim, pela de Judá. Isso causava tensões que permaneciam latentes na memória e coração do povo.

Vamos analisar esse quadro político dentro da narrativa das Escrituras e formar um cenário que nos faça entender a condução de Yahweh e a luta humana pelo trono.

1. Antecedentes tribais: liderança, primogenitura e rivalidades (período patriarcal)

 1.1. Judá, José e a disputa pela liderança

Desde Gênesis, há uma tensão estrutural entre duas linhas de liderança:

 Judá: recebe a promessa régia explícita –  “O cetro não se arredará de Judá” (Gn 49:10);

José (Efraim e Manassés): recebe primazia funcional e numérica. 

Dupla porção (Gn 48:5)

Liderança prática no Egito (Gn 41)

Centralidade posterior no norte

Essa tensão entre promessa régia (Judá) e hegemonia demográfica e política (José) atravessa todo o Antigo Testamento. Como Deus cumpriu Seu propósito de governo em José, mesmo que isso ocorresse no Egito, as tribos descedentes de José (Efraim e Benjamim) ficaram com essa herança cultural da liderança dentro da nação. 

A primeira monarquia como levante popular, veio da tribo efraimita, pela força do povo e não pela eleição Divina. A segunda monarquia, ainda pela vontade do povo, veio também por uma tribo da descedência de José - a tribo Benjamita. Essa herança cultural criava tensões entre a Tribo de Efraim e a Tribo de Judá, que já profeticamente tinha a promessa do cetro messiânico (Gn 49:10). 


 2. Primeira tentativa de monarquia: o experimento efraimita (Juízes 9)

 2.1. Abimeleque e Siquém

 Juízes 9:1–6 – Abimeleque, filho de Gideão, é proclamado rei em Siquém pela força popular.

 Siquém está em território efraimita, centro político e religioso do norte. Eram da descendentes diretos de José e aspirantes do trono e isso os motivou a estabelecer a monarquia em meio a anarquia do período dos juízes.

 2.2. Significado político

Este episódio revela:

 uma monarquia não sancionada por Deus;

 iniciativa tribal, não nacional;

 forte caráter efraimita, das tribos do norte.

O discurso de Jotão (Jz 9:7–15) é uma crítica teológica ao desejo humano de reinar, antecipando o debate de 1 Samuel.

Aqui já aparece o padrão: aspiração ao trono sem eleição divina resulta em instabilidade.


 3. A crise do período dos juízes e o pedido por um rei (1 Samuel 8)

 3.1. O pedido popular

 1 Samuel 8:4–5 – “Constitui-nos um rei… como têm todas as nações”.

O pedido nasce de:

 crise judicial;

 corrupção;

 ameaça filistéia.

 3.2. Avaliação teológica

 1 Samuel 8:7 – “Não te rejeitaram a ti, mas a mim”.

O texto estabelece uma tensão fundamental:

 o povo deseja segurança política;

 Deus aponta para o risco de usurpação de sua soberania. Havia um risco teológico onde um rei por vontade humana, não cumprisse as promessas messiânicas, e o propósito salvífico do Messias Salvador e Redentor. A política e a profecia eram antagônicas e isso colocava em risco o Plano da Salvação. 

O Messias necessariamente precisava vir da tribo de Judá e da linhagem ascendente que formasse o Cristo Redentor do mundo. "Assim, todas as gerações, desde Abraão até Davi, são catorze; desde Davi até o exílio na Babilônia, catorze gerações; e desde o exílio na Babilônia até Cristo, catorze gerações" Mateus 1:17.


 4. A escolha de Saul: monarquia benjamita como solução de compromisso (1 Samuel 9–10)

 4.1. Por que  a tribo de Benjamim? A monarquia inicialmente era a vontade do povo e uma rejeição do próprio Yahweh (1Samuel 8:7) nas palavras do próprio Deus - "não foi a você que rejeitaram, mas a mim, para que eu não reine sobre eles". 

A pessoa de Saul era o cumprimento do desejo do povo, o movimento político do povo. Embora Deus escolhesse a Saul, ele era o rei que satisfazia os olhos do povo - "moço tão belo, que entre os filhos de Israel não havia outro mais belo do que ele. Dos ombros para cima, ele sobressaía a todo o povo" 1 Samuel 9:2.

Saul é:

 da tribo de Benjamim (1Sm 9:1);

 tribo pequena e geograficamente central;

 associada historicamente a José (Gn 35:24).

Politicamente, Benjamim funciona como:

 descendencia de José;

 alternativa menos ameaçadora à hegemonia do norte;

 escolha aceitável para várias tribos.

 4.2. Entronização em Mispa - 1 Samuel 10:17–24

Mispa, antigo centro de assembleia tribal, reforça:

 legitimidade nacional;

 caráter federativo da monarquia inicial.

A monarquia benjamita surge como concessão divina à aspiração humana, mas ainda sob supervisão profética.


 5. A fragilidade da monarquia benjamita (1 Samuel 13–15)

5.1. Ruptura com a autoridade profética

 1 Samuel 13 – Saul usurpa funções cultuais.

 1 Samuel 15 – Desobediência no caso de Amaleque.

Resultado:

 “O Senhor rasgou de ti o reino” (1Sm 15:28)

Teologicamente Saul representa a monarquia segundo o desejo do povo; sua queda mostra os limites de uma realeza fundada mais em carisma político do que em fidelidade.


 6. A ascensão davídica: eleição divina e resistência tribal (1 Samuel 16 – 2 Samuel 5)

 6.1. Eleição divina

 1 Samuel 16:1–13 – Davi é ungido em segredo.

 Ênfase clara: “o Senhor vê o coração” (1Sm 16:7).

 6.2. Resistência do norte

 Após a morte de Saul:

 2 Samuel 2:8–11 – Is-Bosete reina sobre Israel (norte).

Davi reina apenas sobre Judá, em Hebrom.

Há, na prática, dois reinos:

Judá (linhagem davídica);

Israel (herança benjamita, com apoio do norte).

 6.3. Unificação sob Davi

 2 Samuel 5:1–5 – As tribos reconhecem Davi.

 Jerusalém torna-se capital (2Sm 5:6–9), fora do território tribal direto.

Jerusalém funciona como:

 cidade neutra;

 solução política para tensões tribais;

 centro davídico legitimado teologicamente.


 7. A divisão do reino: a revanche efraimita (1 Reis 11–12)

 7.1. Jeroboão, o efraimita

 1 Reis 11:26 – Jeroboão, da tribo de Efraim.

 Recebe promessa profética (1Rs 11:29–39).

Aqui ocorre algo crucial:

Deus permite a divisão;

 mas a promessa é condicional (1Rs 11:38).

 7.2. Rebelião contra a casa de Davi

 1 Reis 12:16 – “Que parte temos em Davi?”

O grito ecoa antigas tensões:

 rejeição da centralização davídica;

 ressentimento do norte;

 tentativa de reverter a hegemonia de Judá.

 7.3. O paradoxo

Jeroboão:

 é instrumento de juízo divino;

 mas estabelece um sistema cultual alternativo (1Rs 12:28–33).

Resultado:

 o norte obtém poder político;

 mas perde legitimidade teológica.


 8. Síntese teológica: eleição divina versus ambição humana

Ao longo da linha do tempo, o texto bíblico constrói um padrão claro:

Aspiração humana ao trono –  Eleição divina

Abimeleque (Jz 9) –  Rejeitado

Saul (1Sm 9–15) – Revogado            

Jeroboão (1Rs 12) – Condicional, fracassa

Davi (1Sm 16 – 2Sm 7) – Estabelecido      

A disputa tribal pelo poder revela:

 que linhagem, número ou força política não garantem legitimidade;

 que a eleição divina frequentemente contraria expectativas humanas;

 que Deus trabalha dentro da história, mas não se submete às ambições tribais.


 9. Conclusão

A história da monarquia em Israel não é apenas uma sucessão de reis, mas uma disputa profunda entre projetos de poder:

 o projeto humano: segurança, centralização, hegemonia tribal;

 o projeto divino: fidelidade, submissão e aliança.

A monarquia benjamita representa uma concessão política;

a monarquia davídica, uma afirmação teológica;

e a rebelião efraimita, uma tentativa recorrente de reverter a eleição divina.

Assim, o Antigo Testamento apresenta a realeza não como direito tribal, mas como dom soberano de Deus, concedido — e retirado — conforme sua vontade.

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