A monarquia era uma tensão entre a liderança Divina e a
vontade do povo por um governo humano, como as demais nações possuíam (1Samuel
8:5,6).
A monarquia como movimento político tem uma linha histórica
nas escrituras; vários eventos desde o patriarcado de Jacó e a ascensão de José
ao governo do Egito, evocaram no povo o desejo de um governo, de um rei e por
fim uma monarquia institucionalizada.
Isso era um movimento de várias tribos, o que levou ao
choque entre aquelas que aspiravam o trono. A própria tribo de Efraim, descendência
direta de José, era uma das que disputavam o trono em Israel.
Mas a tensão cresce quando as tribos esbarram na vontade de
Yahweh que era o Rei Supremo na Teocracia; e mesmo ao ceder ao desejo do povo,
Deus indicou o primeiro rei e substituiu as tribos de Efraim e Benjamim, pela de Judá. Isso
causava tensões que permaneciam latentes na memória e coração do povo.
Vamos analisar esse quadro político dentro da narrativa das
Escrituras e formar um cenário que nos faça entender a condução de Yahweh e a
luta humana pelo trono.
1. Antecedentes tribais: liderança, primogenitura e
rivalidades (período patriarcal)
1.1. Judá, José e a
disputa pela liderança
Desde Gênesis, há uma tensão estrutural entre duas linhas de
liderança:
Judá: recebe a
promessa régia explícita – “O cetro não
se arredará de Judá” (Gn 49:10);
José (Efraim e Manassés): recebe primazia funcional e
numérica.
Dupla porção (Gn 48:5)
Liderança prática no Egito (Gn 41)
Centralidade posterior no norte
Essa tensão entre promessa régia (Judá) e hegemonia demográfica e política (José) atravessa todo o Antigo Testamento. Como Deus cumpriu Seu propósito de governo em José, mesmo que isso ocorresse no Egito, as tribos descedentes de José (Efraim e Benjamim) ficaram com essa herança cultural da liderança dentro da nação.
A primeira monarquia como levante popular, veio da tribo efraimita, pela força do povo e não pela eleição Divina. A segunda monarquia, ainda pela vontade do povo, veio também por uma tribo da descedência de José - a tribo Benjamita. Essa herança cultural criava tensões entre a Tribo de Efraim e a Tribo de Judá, que já profeticamente tinha a promessa do cetro messiânico (Gn 49:10).
2. Primeira tentativa
de monarquia: o experimento efraimita (Juízes 9)
2.1. Abimeleque e
Siquém
Juízes 9:1–6 –
Abimeleque, filho de Gideão, é proclamado rei em Siquém pela força popular.
Siquém está em
território efraimita, centro político e religioso do norte. Eram da descendentes diretos de José e aspirantes do trono e isso os motivou a estabelecer a monarquia em meio a anarquia do período dos juízes.
2.2. Significado
político
Este episódio revela:
uma monarquia não
sancionada por Deus;
iniciativa tribal,
não nacional;
forte caráter efraimita,
das tribos do norte.
O discurso de Jotão (Jz 9:7–15) é uma crítica teológica ao
desejo humano de reinar, antecipando o debate de 1 Samuel.
Aqui já aparece o padrão: aspiração ao trono sem eleição
divina resulta em instabilidade.
3. A crise do período
dos juízes e o pedido por um rei (1 Samuel 8)
3.1. O pedido popular
1 Samuel 8:4–5 –
“Constitui-nos um rei… como têm todas as nações”.
O pedido nasce de:
crise judicial;
corrupção;
ameaça filistéia.
3.2. Avaliação
teológica
1 Samuel 8:7 – “Não
te rejeitaram a ti, mas a mim”.
O texto estabelece uma tensão fundamental:
o povo deseja segurança
política;
Deus aponta para o
risco de usurpação de sua soberania. Havia um risco teológico onde um rei por vontade humana, não cumprisse as promessas messiânicas, e o propósito salvífico do Messias Salvador e Redentor. A política e a profecia eram antagônicas e isso colocava em risco o Plano da Salvação.
O Messias necessariamente precisava vir da tribo de Judá e da linhagem ascendente que formasse o Cristo Redentor do mundo. "Assim, todas as gerações, desde Abraão até Davi, são catorze; desde Davi até o exílio na Babilônia, catorze gerações; e desde o exílio na Babilônia até Cristo, catorze gerações" Mateus 1:17.
4. A escolha de Saul:
monarquia benjamita como solução de compromisso (1 Samuel 9–10)
4.1. Por que a tribo de Benjamim? A monarquia inicialmente era a vontade do povo e uma rejeição do próprio Yahweh (1Samuel 8:7) nas palavras do próprio Deus - "não foi a você que rejeitaram, mas a mim, para que eu não reine sobre eles".
A pessoa de Saul era o cumprimento do desejo do povo, o movimento político do povo. Embora Deus escolhesse a Saul, ele era o rei que satisfazia os olhos do povo - "moço tão belo, que entre os filhos de Israel não havia outro mais belo do que ele. Dos ombros para cima, ele sobressaía a todo o povo" 1 Samuel 9:2.
Saul é:
da tribo de Benjamim
(1Sm 9:1);
tribo pequena e geograficamente
central;
associada
historicamente a José (Gn 35:24).
Politicamente, Benjamim funciona como:
descendencia de José;
alternativa menos
ameaçadora à hegemonia do norte;
escolha aceitável
para várias tribos.
4.2. Entronização em
Mispa - 1 Samuel 10:17–24
Mispa, antigo centro de assembleia tribal, reforça:
legitimidade
nacional;
caráter federativo da
monarquia inicial.
A monarquia benjamita surge como concessão divina à
aspiração humana, mas ainda sob supervisão profética.
5. A fragilidade da
monarquia benjamita (1 Samuel 13–15)
5.1. Ruptura com a autoridade profética
1 Samuel 13 – Saul
usurpa funções cultuais.
1 Samuel 15 –
Desobediência no caso de Amaleque.
Resultado:
“O Senhor rasgou de
ti o reino” (1Sm 15:28)
Teologicamente Saul representa a monarquia segundo o desejo
do povo; sua queda mostra os limites de uma realeza fundada mais em carisma
político do que em fidelidade.
6. A ascensão
davídica: eleição divina e resistência tribal (1 Samuel 16 – 2 Samuel 5)
6.1. Eleição divina
1 Samuel 16:1–13 –
Davi é ungido em segredo.
Ênfase clara: “o
Senhor vê o coração” (1Sm 16:7).
6.2. Resistência do
norte
Após a morte de Saul:
2 Samuel 2:8–11 –
Is-Bosete reina sobre Israel (norte).
Davi reina apenas sobre Judá, em Hebrom.
Há, na prática, dois reinos:
Judá (linhagem davídica);
Israel (herança benjamita, com apoio do norte).
6.3. Unificação sob
Davi
2 Samuel 5:1–5 – As
tribos reconhecem Davi.
Jerusalém torna-se
capital (2Sm 5:6–9), fora do território tribal direto.
Jerusalém funciona como:
cidade neutra;
solução política para
tensões tribais;
centro davídico
legitimado teologicamente.
7. A divisão do
reino: a revanche efraimita (1 Reis 11–12)
7.1. Jeroboão, o
efraimita
1 Reis 11:26 –
Jeroboão, da tribo de Efraim.
Recebe promessa
profética (1Rs 11:29–39).
Aqui ocorre algo crucial:
Deus permite a divisão;
mas a promessa é condicional
(1Rs 11:38).
7.2. Rebelião contra
a casa de Davi
1 Reis 12:16 – “Que
parte temos em Davi?”
O grito ecoa antigas tensões:
rejeição da
centralização davídica;
ressentimento do
norte;
tentativa de reverter
a hegemonia de Judá.
7.3. O paradoxo
Jeroboão:
é instrumento de
juízo divino;
mas estabelece um
sistema cultual alternativo (1Rs 12:28–33).
Resultado:
o norte obtém poder
político;
mas perde
legitimidade teológica.
8. Síntese teológica:
eleição divina versus ambição humana
Ao longo da linha do tempo, o texto bíblico constrói um
padrão claro:
Aspiração humana ao trono – Eleição divina
Abimeleque (Jz 9) – Rejeitado
Saul (1Sm 9–15) – Revogado
Jeroboão (1Rs 12) – Condicional, fracassa
Davi (1Sm 16 – 2Sm 7) – Estabelecido
A disputa tribal pelo poder revela:
que linhagem, número
ou força política não garantem legitimidade;
que a eleição divina
frequentemente contraria expectativas humanas;
que Deus trabalha
dentro da história, mas não se submete às ambições tribais.
9. Conclusão
A história da monarquia em Israel não é apenas uma sucessão
de reis, mas uma disputa profunda entre projetos de poder:
o projeto humano:
segurança, centralização, hegemonia tribal;
o projeto divino:
fidelidade, submissão e aliança.
A monarquia benjamita representa uma concessão política;
a monarquia davídica, uma afirmação teológica;
e a rebelião efraimita, uma tentativa recorrente de reverter
a eleição divina.

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