sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

O SÍMBOLO MONARQUICO DE ISRAEL

Antigo Testamento não atribui explicitamente um símbolo formal à monarquia benjamita / efraimita de Saul, do mesmo modo que a “estrela”. 

Originalmente um símbolo régio explícito de Davi no texto bíblico, a 'estrela de Davi' é uma construção teológica posterior, derivada de Nm 24:17 e consolidada na tradição judaica.

Dito isso, é possível responder distinguindo um símbolo textual, imagem teológica e emblema político implícito.

1. A “estrela” e a monarquia davídica

O símbolo davídico da estrela deriva da profecia:

“Uma estrela procederá de Jacó, e um cetro se levantará de Israel”
(Números 24:17)

Na tradição hebraica:

  • a estrela está ligada à realeza escatológica;

  • o cetro é explicitamente régio (Gn 49:10);

  • a associação direta com Davi ocorre retroativamente, sobretudo no judaísmo do Segundo Templo.

Portanto, o símbolo davídico é teológico e profético, não dinástico no sentido moderno.

2. Saul: que tipo de monarquia ele representa?

Antes de falar em símbolo, é essencial definir a natureza política da monarquia de Saul:

  • não é dinástica (1Sm 13:13–14);

  • não é escatológica;

  • não é centralizada cultualmente;

  • é carismática, militar e tribal.

Isso condiciona profundamente o tipo de imagem simbólica possível.

3. O símbolo implícito da monarquia de Saul: o “rei guerreiro”

3.1. Saul como líder militar carismático

O traço dominante de Saul no texto bíblico é:

  • estatura e aparência régia (1Sm 9:2);

  • liderança militar contra amonitas e filisteus (1Sm 11; 13–14);

  • legitimidade baseada em vitória bélica, não em promessa.

O símbolo funcional de sua monarquia é, portanto, a espada / o braço forte / o rei guerreiro.

Textos-chave:

  • 1Sm 11:6–7 – Saul convoca Israel para a guerra.

  • 1Sm 14:47–48 – Saul é descrito como rei que “fez guerra por todos os lados”.

Em termos simbólicos, Saul representa força, defesa e liderança militar imediata, não um ideal régio duradouro.

4. O símbolo tribal subjacente: José / Efraim

Embora Saul seja benjamita, Benjamim está intimamente ligado a José (Gn 35:24).

4.1. O touro (boi selvagem) como símbolo de José

O símbolo mais antigo e bem fundamentado biblicamente ligado a José/Efraim é:

“O primogênito do seu boi, majestade é;
os seus chifres são chifres de boi selvagem;
com eles empurrará os povos”
(Deuteronômio 33:17)

Esse texto é decisivo porque:

  • associa José/Efraim a força;

  • descreve domínio territorial;

  • usa imagem animal de poder, não de luz ou transcendência.

Se há um símbolo “monárquico” efraimita implícito, é o boi selvagem, imagem de poder físico e expansão.

5. Saul, Efraim e o bezerro: um desenvolvimento posterior

O símbolo do bezerro/boi reaparece de forma explícita na monarquia do norte:

  • 1Rs 12:28–30 – bezerros de ouro em Betel e Dã (Jeroboão, efraimita).

Embora esse símbolo seja idolátrico, ele não surge do nada:

  • dialoga com a tradição de José como governador/rei no egito;

  • expressa poder, fertilidade, força.

Isso sugere continuidade simbólica no norte:

  • força visível em vez de promessa invisível;

  • imagem concreta em vez de palavra profética.

6. Comparação simbólica: Saul × Davi

AspectoMonarquia de Saul (Benjamim/José)Monarquia de Davi (Judá)
Base    Carisma militarEleição profética
Duração    TransitóriaDinástica
Símbolo    Força / espada / touroEstrela / cetro
Ênfase    Defesa imediataPromessa futura
Centro    Mispa / GilgalJerusalém

7. Síntese teológica

  • A estrela davídica aponta para realeza eleita, escatológica e duradoura.

  • A monarquia de Saul não possui símbolo celeste, porque:

    • não foi concebida para durar;

    • não recebeu promessa dinástica;

    • representa a realeza “segundo o desejo do povo” (1Sm 8).

Se quisermos falar de símbolo, ele é:

terreno, militar, forte, mas instável — mais próximo do boi guerreiro do que da estrela.

8. Conclusão

Em termos bíblicos rigorosos:

  • Davi → estrela (luz, promessa, futuro).

  • Saul → força guerreira (espada / boi selvagem), símbolo de poder imediato, não de permanência.

Essa distinção simbólica reflete exatamente a tensão central da narrativa bíblica, entre a realeza concedida por Deus e a realeza desejada pelos homens.


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