O Antigo Testamento não atribui explicitamente um símbolo formal à monarquia benjamita / efraimita de Saul, do mesmo modo que a “estrela”.
Originalmente um símbolo régio explícito de Davi no texto bíblico, a 'estrela de Davi' é uma construção teológica posterior, derivada de Nm 24:17 e consolidada na tradição judaica.
Dito isso, é possível responder distinguindo um símbolo textual, imagem teológica e emblema político implícito.
1. A “estrela” e a monarquia davídica
O símbolo davídico da estrela deriva da profecia:
“Uma estrela procederá de Jacó, e um cetro se levantará de Israel”
(Números 24:17)
Na tradição hebraica:
a estrela está ligada à realeza escatológica;
o cetro é explicitamente régio (Gn 49:10);
a associação direta com Davi ocorre retroativamente, sobretudo no judaísmo do Segundo Templo.
Portanto, o símbolo davídico é teológico e profético, não dinástico no sentido moderno.
2. Saul: que tipo de monarquia ele representa?
Antes de falar em símbolo, é essencial definir a natureza política da monarquia de Saul:
não é dinástica (1Sm 13:13–14);
não é escatológica;
não é centralizada cultualmente;
é carismática, militar e tribal.
Isso condiciona profundamente o tipo de imagem simbólica possível.
3. O símbolo implícito da monarquia de Saul: o “rei guerreiro”
3.1. Saul como líder militar carismático
O traço dominante de Saul no texto bíblico é:
estatura e aparência régia (1Sm 9:2);
liderança militar contra amonitas e filisteus (1Sm 11; 13–14);
legitimidade baseada em vitória bélica, não em promessa.
O símbolo funcional de sua monarquia é, portanto, a espada / o braço forte / o rei guerreiro.
Textos-chave:
1Sm 11:6–7 – Saul convoca Israel para a guerra.
1Sm 14:47–48 – Saul é descrito como rei que “fez guerra por todos os lados”.
Em termos simbólicos, Saul representa força, defesa e liderança militar imediata, não um ideal régio duradouro.
4. O símbolo tribal subjacente: José / Efraim
Embora Saul seja benjamita, Benjamim está intimamente ligado a José (Gn 35:24).
4.1. O touro (boi selvagem) como símbolo de José
O símbolo mais antigo e bem fundamentado biblicamente ligado a José/Efraim é:
“O primogênito do seu boi, majestade é;
os seus chifres são chifres de boi selvagem;
com eles empurrará os povos”
(Deuteronômio 33:17)
Esse texto é decisivo porque:
associa José/Efraim a força;
descreve domínio territorial;
usa imagem animal de poder, não de luz ou transcendência.
Se há um símbolo “monárquico” efraimita implícito, é o boi selvagem, imagem de poder físico e expansão.
5. Saul, Efraim e o bezerro: um desenvolvimento posterior
O símbolo do bezerro/boi reaparece de forma explícita na monarquia do norte:
1Rs 12:28–30 – bezerros de ouro em Betel e Dã (Jeroboão, efraimita).
Embora esse símbolo seja idolátrico, ele não surge do nada:
dialoga com a tradição de José como governador/rei no egito;
expressa poder, fertilidade, força.
Isso sugere continuidade simbólica no norte:
força visível em vez de promessa invisível;
imagem concreta em vez de palavra profética.
6. Comparação simbólica: Saul × Davi
| Aspecto | Monarquia de Saul (Benjamim/José) | Monarquia de Davi (Judá) |
|---|---|---|
| Base | Carisma militar | Eleição profética |
| Duração | Transitória | Dinástica |
| Símbolo | Força / espada / touro | Estrela / cetro |
| Ênfase | Defesa imediata | Promessa futura |
| Centro | Mispa / Gilgal | Jerusalém |
7. Síntese teológica
A estrela davídica aponta para realeza eleita, escatológica e duradoura.
A monarquia de Saul não possui símbolo celeste, porque:
não foi concebida para durar;
não recebeu promessa dinástica;
representa a realeza “segundo o desejo do povo” (1Sm 8).
Se quisermos falar de símbolo, ele é:
terreno, militar, forte, mas instável — mais próximo do boi guerreiro do que da estrela.
8. Conclusão
Em termos bíblicos rigorosos:
Davi → estrela (luz, promessa, futuro).
Saul → força guerreira (espada / boi selvagem), símbolo de poder imediato, não de permanência.
Essa distinção simbólica reflete exatamente a tensão central da narrativa bíblica, entre a realeza concedida por Deus e a realeza desejada pelos homens.

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