1. Gilgal: origem e localização na narrativa bíblica
Gilgal surge na Bíblia como o primeiro acampamento de Israel
em Canaã, imediatamente após a travessia do Jordão sob a liderança de Josué.
Em Josué 4:19–20: “O povo subiu do Jordão no dia dez do
primeiro mês, e acampou-se em Gilgal, na extremidade oriental de Jericó. E as
doze pedras que tiraram do Jordão, levantou-as Josué em Gilgal.”
O nome “Gilgal” é explicitamente interpretado de forma
teológica e simbólica:
Em Josué 5:9 é dito: “Hoje revolvi (גָּלֹותִי, galôti) de sobre vós o opróbrio do Egito.
Pelo que o nome daquele lugar se chamou Gilgal até ao dia de hoje.”
Desde sua origem, Gilgal não é apenas um local geográfico,
mas um marco fundacional, associado à entrada na terra, à identidade nacional e
à ação redentora de YHWH.
2. Gilgal como centro
cultual e político no período de Josué
Gilgal funcionou como quartel-general da conquista inicial
de Canaã:
Em Josué 9:6 é descrito que os gibeonitas vão a Josué “ao
arraial, a Gilgal”.
Em Josué 10:6–7, 15, 43 – Josué parte de Gilgal para
campanhas militares e retorna a Gilgal após as batalhas.
Em Josué 14:6 – Os
líderes de Israel se apresentam a Josué em Gilgal para tratar da herança da
terra.
Esses textos indicam que Gilgal operava como:
1. Centro administrativo
2. Base militar
3. Local de decisões nacionais
Durante essa fase, Gilgal exerce uma função política clara,
ainda que sob a liderança carismático-teocrática de Josué, não de um rei.
3. Gilgal e a
renovação da aliança
Em Gilgal ocorrem ritos fundamentais para a constituição do
povo como nação da aliança:
A Circuncisão nacional:
Em Josué 5:2–8 – A nova geração é circuncidada em Gilgal.
A Celebração da
Páscoa:
Em Josué 5:10 –
“Estando os filhos de Israel acampados em Gilgal, celebraram a Páscoa…”
Esses eventos conferem a Gilgal um status político-religioso,
pois a legitimidade de Israel como povo da terra está ligada à obediência à
aliança.
4. Gilgal no período
dos Juízes e de Samuel
No período posterior, Gilgal continua sendo um local de
relevância institucional:
É descrito em Juízes
2:1 que “O anjo de YHWH sobe de Gilgal a Boquim”, sugerindo que Gilgal ainda
era referência espiritual.
Em 1 Samuel 7:16 – O
profeta julgava Israel “andando de ano em ano a Betel, Gilgal e Mispa”.
Aqui, Gilgal aparece como:
Um centro judicial
Um local de liderança
profética
Um ponto de
convergência nacional
Isso indica que Gilgal manteve seu papel político mesmo após
o período da conquista.
5. Gilgal e a
transição para a monarquia
5.1 O sacrifício
régio e a crise de autoridade (1 Samuel 13)
Antes da renovação do reino, Gilgal já aparece como palco de
tensão política:
Em 1 Samuel 13:4–15 –
Saul oferece sacrifício em Gilgal, usurpando prerrogativas sacerdotais e sendo
repreendido por Samuel.
Esse episódio mostra que Gilgal era visto como local
apropriado para atos oficiais do governo, inclusive sacrifícios ligados à
liderança nacional.
6. A renovação do
reino em Gilgal (1 Samuel 11:14)
O ponto culminante da importância política de Gilgal ocorre
após a vitória de Saul sobre os amonitas:
Em 1 Samuel 11:14–15 é relatado: “Então disse Samuel ao
povo: Vinde, e vamos a Gilgal, e renovemos ali o reino. E todo o povo foi a
Gilgal, e ali fizeram rei a Saul perante o SENHOR em Gilgal; e ali sacrificaram
sacrifícios pacíficos perante o SENHOR; e Saul e todos os homens de Israel se
alegraram muito.”
6.1 Significado
político da renovação
A escolha de Gilgal não é casual. Ela comunica:
1. Continuidade histórica
Gilgal remete ao
início da vida nacional em Canaã.
2. Legitimação teológica
O reinado é
confirmado “perante o SENHOR”.
3. Aceitação nacional
O povo inteiro
participa do ato.
4. Formalização institucional
Saul já havia sido
escolhido (1Sm 10), mas agora seu reinado é ratificado politicamente após uma
vitória militar.
Gilgal funciona, portanto, como local de transição entre o
regime tribal e a monarquia.
7. Avaliação teológica e política de Gilgal
Na narrativa bíblica, Gilgal pode ser caracterizada como:
Lugar de começos (Js
4–5)
Centro militar e
administrativo (Js 9–10)
Espaço de liderança
profética (1Sm 7:16)
Palco da legitimação
régia (1Sm 11:14–15)
A renovação do reino em Gilgal reforça que a monarquia
israelita não nasce desligada da tradição da aliança, mas ancorada nos marcos
fundacionais da história sagrada.
Conclusão
Gilgal ocupa um lugar singular na história de Israel como símbolo
de fundação nacional, autoridade política e legitimação teológica. Ao renovar o
reino de Saul em Gilgal, a narrativa bíblica vincula a monarquia nascente à
memória da conquista, à aliança e à liderança divina, conferindo ao novo regime
uma base histórica e religiosa sólida dentro da tradição israelita.

Perfeito!!!! Gratidão!
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