sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

A CIDADE DE GILGAL

 A cidade de Gilgal foi onde Samuel renovou o reino de Saul para o inicio efetivo da monarquia em Israel. Curiosamente, essa renovação do reino e o estabelecimento da monarquia não ocorreu ao sul, em Jerusalém, onde o tabernáculo já se encontrava. A força política das tribos do norte polarizavam o poder e os movimentos da nação nessa região. E Gilgal foi escolhida pelo profeta para esse importante evento da monarquia que se iniciava.

1. Gilgal: origem e localização na narrativa bíblica

Gilgal surge na Bíblia como o primeiro acampamento de Israel em Canaã, imediatamente após a travessia do Jordão sob a liderança de Josué.

Em Josué 4:19–20: “O povo subiu do Jordão no dia dez do primeiro mês, e acampou-se em Gilgal, na extremidade oriental de Jericó. E as doze pedras que tiraram do Jordão, levantou-as Josué em Gilgal.”

O nome “Gilgal” é explicitamente interpretado de forma teológica e simbólica:

Em Josué 5:9 é dito: “Hoje revolvi (גָּלֹותִי, galôti) de sobre vós o opróbrio do Egito. Pelo que o nome daquele lugar se chamou Gilgal até ao dia de hoje.”

Desde sua origem, Gilgal não é apenas um local geográfico, mas um marco fundacional, associado à entrada na terra, à identidade nacional e à ação redentora de YHWH.

 2. Gilgal como centro cultual e político no período de Josué

Gilgal funcionou como quartel-general da conquista inicial de Canaã:

Em Josué 9:6 é descrito que os gibeonitas vão a Josué “ao arraial, a Gilgal”.

Em Josué 10:6–7, 15, 43 – Josué parte de Gilgal para campanhas militares e retorna a Gilgal após as batalhas.

 Em Josué 14:6 – Os líderes de Israel se apresentam a Josué em Gilgal para tratar da herança da terra.

Esses textos indicam que Gilgal operava como:

1. Centro administrativo

2. Base militar

3. Local de decisões nacionais

Durante essa fase, Gilgal exerce uma função política clara, ainda que sob a liderança carismático-teocrática de Josué, não de um rei.

 3. Gilgal e a renovação da aliança

Em Gilgal ocorrem ritos fundamentais para a constituição do povo como nação da aliança:

A Circuncisão nacional:

Em Josué 5:2–8 – A nova geração é circuncidada em Gilgal.

 A Celebração da Páscoa:

  Em Josué 5:10 – “Estando os filhos de Israel acampados em Gilgal, celebraram a Páscoa…”

Esses eventos conferem a Gilgal um status político-religioso, pois a legitimidade de Israel como povo da terra está ligada à obediência à aliança.

 4. Gilgal no período dos Juízes e de Samuel

No período posterior, Gilgal continua sendo um local de relevância institucional:

 

 É descrito em Juízes 2:1 que “O anjo de YHWH sobe de Gilgal a Boquim”, sugerindo que Gilgal ainda era referência espiritual.

 Em 1 Samuel 7:16 – O profeta julgava Israel “andando de ano em ano a Betel, Gilgal e Mispa”.

Aqui, Gilgal aparece como:

 Um centro judicial

 Um local de liderança profética

 Um ponto de convergência nacional

Isso indica que Gilgal manteve seu papel político mesmo após o período da conquista.

 5. Gilgal e a transição para a monarquia

 5.1 O sacrifício régio e a crise de autoridade (1 Samuel 13)

Antes da renovação do reino, Gilgal já aparece como palco de tensão política:

 Em 1 Samuel 13:4–15 – Saul oferece sacrifício em Gilgal, usurpando prerrogativas sacerdotais e sendo repreendido por Samuel.

Esse episódio mostra que Gilgal era visto como local apropriado para atos oficiais do governo, inclusive sacrifícios ligados à liderança nacional.

 6. A renovação do reino em Gilgal (1 Samuel 11:14)

O ponto culminante da importância política de Gilgal ocorre após a vitória de Saul sobre os amonitas:

Em 1 Samuel 11:14–15 é relatado: “Então disse Samuel ao povo: Vinde, e vamos a Gilgal, e renovemos ali o reino. E todo o povo foi a Gilgal, e ali fizeram rei a Saul perante o SENHOR em Gilgal; e ali sacrificaram sacrifícios pacíficos perante o SENHOR; e Saul e todos os homens de Israel se alegraram muito.”

 6.1 Significado político da renovação

A escolha de Gilgal não é casual. Ela comunica:

1. Continuidade histórica

   Gilgal remete ao início da vida nacional em Canaã.

2. Legitimação teológica

   O reinado é confirmado “perante o SENHOR”.

3. Aceitação nacional

   O povo inteiro participa do ato.

4. Formalização institucional

   Saul já havia sido escolhido (1Sm 10), mas agora seu reinado é ratificado politicamente após uma vitória militar.

Gilgal funciona, portanto, como local de transição entre o regime tribal e a monarquia.

7. Avaliação teológica e política de Gilgal

Na narrativa bíblica, Gilgal pode ser caracterizada como:

 Lugar de começos (Js 4–5)

 Centro militar e administrativo (Js 9–10)

 Espaço de liderança profética (1Sm 7:16)

 Palco da legitimação régia (1Sm 11:14–15)

A renovação do reino em Gilgal reforça que a monarquia israelita não nasce desligada da tradição da aliança, mas ancorada nos marcos fundacionais da história sagrada.

Conclusão

Gilgal ocupa um lugar singular na história de Israel como símbolo de fundação nacional, autoridade política e legitimação teológica. Ao renovar o reino de Saul em Gilgal, a narrativa bíblica vincula a monarquia nascente à memória da conquista, à aliança e à liderança divina, conferindo ao novo regime uma base histórica e religiosa sólida dentro da tradição israelita.

Um comentário: