O Livro de Salmos tem um tema
“O ser humano vive em apuros e Deus o socorre”.
A evidência disso são o grande
número de Salmos de lamentação (60 salmos) é o maior grupo temático do livro
todo.
As expressões usadas pelos
salmistas também indicam que eles viviam em tribulações. Na versão JFAA a expressão
“socorro” aparece 18x; o clamor “salva” aparece 28x; a súplica “livra” aparece
42x; o pedido “responde aparece 14x; o salmista pede 45x para Deus o “ouvir” ou
“dar ouvidos” a sua oração; por 35x os salmistas dizem “clamo”, “clamei”, “clamor”.
Os salmistas viviam em apuros,
perseguições, oposições, problemas, tribulações e situações difíceis, e Deus
sempre os socorre e os livra.
O Pedido de Socorro
O clamor por socorro é uma das
vozes mais características do Saltério. Se considerarmos as ocorrências
explícitas dessa expressão, encontramos repetidamente esse padrão; o número
exato varia conforme o termo hebraico e a tradução adotada.
Isso aponta para algo muito
maior: os Salmos são, em grande medida, a história do ser humano em apuros
encontrando um Deus que socorre.
O salmista está cercado por
inimigos, doente, injustiçado, perseguido, ameaçado de morte, esmagado pela
culpa, angustiado pela aparente ausência de Deus ou simplesmente incapaz de
resolver sua própria situação. Nessas circunstâncias, uma palavra surge repetidamente:
SOCORRO,
YAHWEH! Porque já não ha homens piedosos
Na minha angustia, invoquei YAHWEH, gritei por SOCORRO ao meu
Deus.
Gritaram por SOCORRO, mas ninguém lhes acudiu; clamaram ao YAHWEH,
mas ele não respondeu.
Do seu santuário te envie SOCORRO e desde Sião te sustenha.
Ouve-me as
vozes súplices, quando a ti clamar por SOCORRO. Slm 28:2
YAHWEH, meu
Deus, clamei a ti por SOCORRO, e tu me saraste. Slm 30:2
ouviste a minha
suplice voz, quando clamei por teu SOCORRO. Slm 31:22
Ouve, YAHWEH, a
minha oração, escuta-me quando grito por SOCORRO Slm 39:12
Presta-nos
auxilio na angustia, pois vão e o SOCORRO do homem. Slm 60:11
Quanto a mim, amargurado
e aflito, ponha-me o teu SOCORRO, ó Deus, em alto refugio. Slm
69:29
Mas eu, YAHWEH,
clamo a ti por SOCORRO Slm 88:13
Presta-nos
auxilio na angustia, pois vão e o SOCORRO do homem. Slm 108:12
Elevo os olhos para os montes: de onde me virá o SOCORRO? Slm 121:1
Essa repetição revela uma
característica essencial da antropologia dos Salmos: o ser humano é vulnerável.
Ele não controla todas as circunstâncias, não consegue derrotar todos os
inimigos, não compreende todos os acontecimentos e, muitas vezes, não possui
recursos suficientes para salvar a si mesmo.
Um Deus que Socorre
Mas essa é apenas metade da
teologia do Saltério. A outra metade é muito mais importante: há Alguém a quem
o ser humano pode clamar.
Por isso, o clamor não é
propriamente uma expressão de ausência de fé. Muitas vezes é justamente uma das
formas mais intensas da fé. Quem clama reconhece simultaneamente duas coisas: “Eu
não consigo” - mas - “Tu podes.”
É nesse encontro entre a
insuficiência humana e a suficiência divina que grande parte da espiritualidade
dos Salmos acontece. E frequentemente o Saltério apresenta o outro lado da
experiência. O homem que clamou depois testemunha:
Esperei
confiantemente por YAHWEH; ele se inclinou para mim e me ouviu quando clamei
por SOCORRO. Slm 40:1
Pois nao
desprezou, nem abominou a dor do aflito, nem ocultou dele o rosto, mas o ouviu,
quando lhe gritou por SOCORRO. Slm 22:24
Deus é o nosso
refugio e fortaleza, SOCORRO bem presente nas tribulações. Slm 46:1
APURO → CLAMOR
→ INTERVENÇÃO DIVINA → LIVRAMENTO → GRATIDÃO → LOUVOR.
O homem do Salmo 30 pode dizer: “Yahweh, meu Deus, clamei a ti por socorro, e tu me curaste.” (Sl 30:2) O verso contém quase toda essa teologia em uma única frase: eu estava em necessidade → clamei → Tu me socorreste.
Os salmos sendo experiências humanas, nos ensinam que as tribulações fazem parte da realidade humana. Jesus mesmo explicitou essa realidade ao dizer – “Estas coisas vos tenho dito para que tenhais paz em mim. No mundo, passais por aflições; mas tende bom ânimo; eu venci o mundo” João 16:33. O apóstolo Pedro ensina – “Amados, não estranheis o fogo ardente que surge no meio de vós, destinado a provar-vos, como se alguma coisa extraordinária vos estivesse acontecendo” 1 Pedro 4:12.
Os salmos assim são um grande consolo nessas situações variadas de tristezas e tribulações, pois os salmistas foram socorridos e isso é uma garantia que seremos socorridos da mesma forma. O salmista diz – “Yahweh, meu Deus, clamei a ti por socorro, e tu me curaste.” Salmo 30:2. “Busquei a Yahweh, e Ele me acolheu; livrou-me de todos os meus temores” Salmo 34:4. “Em meio à tribulação, invoquei a Yahweh; e Yahweh me ouviu e me deu folga” Salmo 118:5. “O meu socorro vem de YAHWEH, que fez o ceu e a terra” Salmo 121:2. “O nosso socorro esta em o nome do YAHWEH, criador do ceu e da terra” Salmo 124:8.
Talvez, então, possamos resumir
uma das grandes narrativas espirituais do Saltério desta maneira: Os Salmos são
as palavras de seres humanos que descobriram que, quando a vida os coloca em
situações maiores do que eles, existe um Deus maior do que a situação.
Por isso, o tema não é
simplesmente “o ser humano em apuros”. Se terminasse aí, o Saltério seria um
livro de lamentações. O tema completo é: O ser humano em apuros clama; Deus
ouve, aproxima-se, sustenta, protege, perdoa, salva e livra; então o ser humano
volta sua voz para Deus — agora não mais apenas para pedir socorro, mas para
agradecer e adorá-Lo.
O clamor e o louvor, portanto,
são duas pontas da mesma experiência. Muitas vezes, aquele que termina dizendo “Louvai
a Yahweh!” é exatamente aquele que começou dizendo “Socorre-me, Yahweh!”.
Quando o Clamor Se Transforma em Louvor
Talvez essa seja uma das
mensagens mais consoladoras dos Salmos: Deus nunca prometeu que Seus filhos
jamais estariam em apuros; Ele se revelou como o Deus a quem podemos clamar
quando os apuros chegam.
Os salmistas tiveram medo,
choraram, foram perseguidos, sentiram-se sozinhos e chegaram a perguntar: “Até
quando, Yahweh?” Mas continuaram falando com Deus. A angústia não interrompeu o
relacionamento; tornou-se oração.
E essa é uma grande lição
espiritual do Saltério: quando não sabemos o que fazer, ainda podemos clamar.
Quando nossos recursos terminam, Deus não termina. Quando não conseguimos
enxergar uma saída, podemos dizer simplesmente: “Socorre-me, Yahweh!”
Muitos salmos começam no vale e
terminam em adoração porque, entre o vale e o louvor, houve um encontro com
Deus.
Por isso, não devemos ter
vergonha de clamar. Clamar é reconhecer nossa insuficiência e confessar a
suficiência de Deus. É dizer: “Senhor, isto é maior do que eu, mas não é maior
do que Tu.”
Qual foi a última vez que você
orou assim: ‘Socorro Yahweh’. (?) Se alguma vez oramos dessa forma; isso porque
nossas orações são tão frias, que não chegamos nesse ponto de clamor.
O mesmo homem que um dia disse:
“Apressa-te, Yahweh, em me ajudar” (Sl 40:13), pôde posteriormente testemunhar:
“Busquei a Yahweh, e Ele me acolheu; livrou-me de todos os meus temores” (Sl
34:4).
Assim também acontece conosco. O
clamor de hoje pode tornar-se o testemunho de amanhã. A oração feita entre
lágrimas pode transformar-se no cântico que contaremos a outros.
Quando estivermos em apuros,
portanto, façamos aquilo que os salmistas fizeram: clamemos. Porque o Deus dos
Salmos continua sendo o Deus que ouve, aproxima-se e socorre. E quando o
socorro chegar, façamos também aquilo que eles fizeram: voltemos ao mesmo Deus
que ouviu nosso clamor — agora para adorá-Lo.

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