Foram 12 discursos falaciosos – são
3 discursos de Elifaz; 3 discusos de Bildade; 2 discursos de Zofar e 4
discursos de Eliú. Jó responde com outros 11 discursos.
Em Jó 42:7 o próprio Deus diz - ...
vocês não disseram de mim o que era reto, como o meu servo Jó." Esse é um
texto extraordinário porque Deus não repreende os amigos simplesmente por terem
sido insensíveis com Jó. O motivo da repreensão é muito mais profundo:
Observe cuidadosamente. Deus não
diz: "Vocês não falaram corretamente sobre Jó." Ele diz: "Vocês
não falaram corretamente sobre Mim." Ou seja, o maior erro dos amigos foi teológico.
Eles defenderam Deus de maneira errada.
Isso abre uma perspectiva
extremamente rica. Podemos identificar diversas "falácias teológicas"
que percorrem seus discursos. Vamos entender esses erros teológicos:
1. A falácia da retribuição
imediata
Erro: Todo justo prospera. Todo
ímpio sofre. Logo, quem sofre é culpado.
Textos: Jó 4:7-8; 8:20; 11:13-20;
22:4-11
Meia verdade: A Bíblia ensina que
o pecado produz consequências.
O erro: Transformar um princípio
geral numa lei universal.
O próprio livro de Jó destrói
essa ideia logo no início da narrativa, ao demonstrar que Jó embora fosse “justo
integro, reto e que se desviava do mal” 1:1, acabou sofrendo fatalidades em sua
vida. O justo está sujeito a sofrer tribulações nesse mundo (João 16:33; Rom.
5:3).
2. A falácia da prosperidade como
prova da aprovação divina
Segundo os amigos, a riqueza é um
favor divino. As perdas seriam reprovação divina. Entretanto, Jó já havia sido
declarado justo antes de perder tudo. Logo, a prosperidade nunca foi a base do
julgamento de Deus.
3. A falácia do sofrimento como
prova de pecado oculto
Este talvez seja o erro mais
repetido. Os 4 amigos jamais conseguem imaginar outra explicação para as
fatalidades na vida de Jó.
Se Jó sofre, imaginavam eles, deve
existir algum pecado escondido. É exatamente isso que Elifaz afirma em Jó 22. No
entanto, o leitor conhece uma informação que eles ignoram: Deus já havia
declarado Jó íntegro (1:1,8; 2:3).
4. A falácia da experiência pessoal como
autoridade absoluta
Elifaz diz: "Segundo eu
tenho visto..." (Jó 4:8). Ou seja, sua experiência torna-se regra
universal. É uma falácia muito comum. Confundir experiência pessoal com verdade
absoluta.
5. A falácia da tradição
infalível
Bildade argumenta: "Pergunta
às gerações passadas..." (Jó 8:8). A tradição possui enorme valor para os
seres humanos. Mas não é infalível. O próprio Deus mostra que toda aquela
tradição estava errada.
6. A falácia da falsa causa
A lógica deles é: Sofrimento seria
gerado pelo pecado. Mas eles confundem correlação com causalidade. Nem todo
sofrimento nasce de pecado pessoal. Jesus corrige exatamente essa ideia em João
9:1-3.
7. A falácia da simplificação da
providência
Para eles, Deus sempre age da
mesma maneira. Não existe mistério. Não existe demora. Não existe juízo futuro.
Tudo acontece imediatamente. O livro inteiro mostra justamente o contrário.
8. A falácia da falsa defesa de
Deus
Eles imaginam
que estão defendendo Deus. No entanto Deus não precisa de advogados, Ele é O
Grande Juiz. Deus, no contexto da Teodicéia – o julgamento do caráter de Deus
que Satanás havia colocado em dúvida – Deus precisa de testemunhas; Jó foi uma
dessas testemunhas ao universo.
Na realidade, os amigos estavam acusando um
homem que Deus havia absolvido. É uma ironia impressionante. Na tentativa de
defender Deus, acabam falando mentiras sobre Deus, e ferindo o seu melhor
amigo.
9. A falácia da justiça visível
Eles acreditam que o estado atual
da vida da pessoa (Jó) revelava o julgamento divino. Mas no início do livro é
mostrado que o julgamento ocorreu antes das circunstâncias – Jó era justo, e
por ser justo, acabou sofrendo os ataques do Acusador. Assim, circunstâncias
são diferentes do veredito. Esse talvez seja o maior erro hermenêutico deles.
10. A falácia da teologia sem tribunal
Eles ignoram completamente a
existência do tribunal celestial. Para eles, toda a realidade se resume ao que
pode ser observado na Terra.
O leitor, no entanto, sabe que
existe existe um concílio universal (1:6); um julgamento invisível; um acusador
(1:7); uma acusação; (1:9); um acusado, o próprio Deus (1:10); e uma testemunha
(1:11) que passa a ser perseguida, destruída, para que a tese de Satanás seja
provada ‘verdadeira’.
A ignorância dos amigos sobre esses
fatos, explica praticamente todos os seus equívocos.
11. A falácia da culpa sem investigação
Nenhum deles investiga. Nenhum
pergunta. Nenhum apresenta provas. Eles já chegam ao julgamento. É exatamente o
oposto do procedimento jurídico defendido pela própria Lei de Moisés
(Deuteronômio 17:4; 19:15-18).
12. A falácia da ortodoxia sem
verdade
Talvez seja a mais perigosa.
Ortodoxia se trata da doutrina correta. Quase tudo o que dizem possui textos
bíblicos ou princípios verdadeiros. Falam corretamente sobre: santidade de
Deus; justiça de Deus; soberania de Deus; pecado humano; necessidade de
arrependimento.
O problema não são esses temas
isolados. O problema é a aplicação. Misturam verdades com falsas conclusões. São
meias verdades. E meia verdade, aplicada fora do contexto, torna-se erro.
É por isso que Deus não diz:
"Tudo o que vocês disseram é falso." Mas afirma: "Não disseram
de mim o que era reto." Ou seja, eles falaram muitas verdades sobre Deus,
porém organizaram essas verdades dentro de um sistema teológico equivocado.
13. A falácia de julgar Deus por
uma revelação incompleta.
Os amigos interpretaram toda a
atuação de Deus olhando apenas para a realidade visível. Ignoravam
completamente o tribunal celestial, a acusação de Satanás e o veredito inicial
pronunciado por Deus. Construíram uma teologia baseada em informações verdadeiras,
porém incompletas. O resultado foi um retrato distorcido do caráter de Deus.
A Experiência Religiosa e a Fé
Uma das grandes lições do livro
de Jó é que homens sinceros, religiosos e profundamente convencidos de que
estavam defendendo Deus podem, ainda assim, falar falsamente sobre Deus. Essa
talvez seja a advertência mais solene de Jó 42:7.
Os amigos de Jó não eram pagãos.
Não eram idólatras. Não rejeitavam a soberania divina. Pelo contrário, citaram
inúmeras verdades sobre a santidade, a justiça e o poder de Deus. O problema
foi que construíram um sistema teológico que misturava verdades com conclusões
erradas. O resultado foi um retrato distorcido do caráter de Deus. Esse
princípio permanece atual.
Aplicação Espiritual
A Bíblia nunca incentiva o crente
a aceitar um ensino apenas porque ele é antigo, popular ou defendido por
líderes respeitados. Ao contrário, ela constantemente chama o povo de Deus a
examinar as Escrituras. Os bereanos, por exemplo, são elogiados porque, mesmo
ouvindo o apóstolo Paulo, "examinavam cada dia as Escrituras para ver se
as coisas eram, de fato, assim" (Atos 17:11). O apelo bíblico não é à
credulidade, mas ao discernimento.
Sob essa perspectiva, o cristão
deve perguntar continuamente: "O texto realmente diz isso?", e não
apenas: "Sempre me ensinaram assim?"
Diversas doutrinas debatidas ao
longo da história ilustram a necessidade desse exame cuidadoso. Um exemplo é a
afirmação de que o Antigo Testamento teria perdido sua validade para o cristão.
Entretanto, em Mateus 5:17, Jesus declara:
"Não pensem que vim revogar a Lei ou os
Profetas; não vim para revogar, vim para cumprir."
A Lei e os Profetas citados aqui
por Jesus, eram a Bíblia hebraica, o Antigo Testamento que hoje conhecemos.
Jesus não veio descartar essa parte da Bíblia. O próprio Antigo Testamento
testemunha que Jesus é o Cristo tanto anunciado.
Outro exemplo é a ideia de que
toda a Lei foi abolida. O próprio contexto de Mateus 5 continua afirmando que
nem um "i" ou um "til" passaria da Lei (Mt 5:18). A Lei
aqui se refere ao Pentateuco, os cinco livros que contem os mandamentos de
Deus, incluindo os Dez Mandamentos. A Lei não foi abolida. Jesus ensinava a
guarda dessa Lei (Mateus 19:18.19) e destacou os dois grandes mandamentos dessa
Lei (Mateus 22:36-40).
O mesmo ocorre com a questão do
sábado. Lucas registra que Jesus, "segundo o seu costume", entrou na
sinagoga no sábado (Lc 4:16) e ali ensinava o povo. Os Evangelhos mostram
repetidamente Jesus ensinando sobre o verdadeiro propósito do sábado,
confrontando interpretações legalistas, mas não há um relato explícito de Jesus
ordenando a substituição do sábado pelo domingo.
As diferentes tradições cristãs
explicam a prática dominical de maneiras diferentes, recorrendo a textos da
ressurreição de Jesus, mas em nenhum momento o dia da ressurreição de Jesus foi
declarado santo. Essa é uma tradição humana. Foi o desenvolvimento histórico da
igreja em transformar o dia santo dos pagãos – o dia do sol – que acabou
tornando esse dia como santo.
A responsabilidade do cristão
continua sendo investigar cuidadosamente as Escrituras. Há muitas outras
falácias desenvolvidas por tradições, sincretismo e erros de interpretação.
Conclusão
É exatamente esse o ponto que o
livro de Jó ensina. Os amigos de Jó repetiam ideias amplamente aceitas. Eram
coerentes, eloquentes e pareciam defender a honra de Deus. Mesmo assim, Deus
declarou que eles não haviam falado corretamente a Seu respeito.
Essa advertência atravessa toda a
Bíblia. A verdade não é determinada pelo número de seus defensores, pela
antiguidade de uma tradição nem pela eloquência de quem a ensina. Ela deve ser
constantemente confrontada com a revelação divina.
Por isso, o maior antídoto contra
as falácias religiosas não é a desconfiança generalizada, mas uma atitude
semelhante à dos bereanos (Atos 17:11): ouvir com respeito, estudar com
diligência e submeter toda conclusão ao testemunho das Escrituras.
O livro de Jó lembra que até
pessoas piedosas podem errar ao falar de Deus; por isso, a fidelidade do
discípulo consiste em permitir que a Palavra de Deus seja a autoridade final
para corrigir até mesmo as convicções mais antigas.

Artigo maravilhoso!
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