A rejeição de Saul é apresentada não como um ato isolado ou
arbitrário, mas como o desfecho de um padrão de transgressões que violam
princípios centrais da Lei de Deus. A narrativa bíblica constrói
progressivamente o caso contra Saul, demonstrando que sua rejeição decorre de
pecados concretos, identificáveis à luz da Torá, especialmente no que se refere
à obediência ritual, à autoridade profética, ao culto e ao conceito de herem.
O primeiro pecado fundamental é a
desobediência direta à palavra profética, que na teologia do livro de deuteronômio
equivale à desobediência ao próprio Deus. Em 1Samuel 10:8 ele recebe uma ordem
do profeta de esperar sete dias, mas devido a sua impaciência e precipitação
ele não faz isso e age por conta própria.
O segundo grande pecado de Saul é a usurpação de funções cultuais reservadas aos sacerdotes. Em 1 Samuel 13:8–14, Saul oferece o holocausto em Gilgal por iniciativa própria. Esse ato viola diretamente a legislação que restringe o exercício sacrificial ao sacerdócio aarônico, conforme estabelecido em Êxodo 28:1, Números 18:1–7 e Deuteronômio 33:8–10.
A Lei deixa claro que aproximar-se do altar sem autorização divina
constitui profanação do culto, descrito em Levítico 10:1–2. A atitude de Saul
não é apenas impaciência, mas uma transgressão consciente da ordem cultual
estabelecida por Deus. Esse era um péssimo exemplo ao povo; Deus tentava
centrali zar o seu culto e eliminar a idolatria, e o rei precisava demonstrar
uma obediência estrita e rigorosa.
No terceiro pecado de Saul em 1 Samuel 15:1–3, ele recebe uma ordem explícita para executar o herem, a destruição total, contra Amaleque, aniquilando totalmente pessoas, animais e bens. Ao poupar Agague e o melhor do rebanho, nos vs8,9, Saul viola o princípio do anátema, claramente legislado em Deuteronômio 7:2–6, Deuteronômio 20:16–18 e Levítico 27:28–29.
O herem, o juízo de Deus, não admitia exceções pragmáticas
ou morais; aquilo que era consagrado à destruição pertencia irrevogavelmente a
Yahweh. Ao selecionar o que destruir e o que preservar, Saul se coloca como juiz
acima do Juiz Celestial.
Associado a isso está o pecado da
racionalização. Saul tenta justificar sua transgressão afirmando que os animais
poupados seriam destinados a sacrifícios ao Senhor, conforme 1 Samuel 15:15.
Essa justificativa contradiz frontalmente a teologia sacrificial da Torá,
segundo a qual o sacrifício não substitui a obediência. Deuteronômio 10:12–13 e 30:15–20 deixam claro que a fidelidade à aliança precede qualquer
ato cultual. O princípio é repetido pelo profeta no v22, em perfeita
consonância com a Lei: obedecer é melhor do que sacrificar.
Outro pecado relevante é a
transferência de culpa para o povo. Nos vs15 e 21, Saul atribui a decisão de
poupar os despojos à pressão popular. Essa atitude viola o princípio de
responsabilidade pessoal do líder, amplamente afirmado na Torá, especialmente
em Deuteronômio 17:18–20, onde o rei é chamado a submeter-se integralmente à
Lei e não seguir seus próprios interesses ou os do povo. A liderança em Israel
não é delegação democrática de vontade, mas submissão direta à autoridade
divina.
Além disso, Saul demonstra temor
dos homens em lugar do temor de Yahweh. No v24, ele confessa explicita-mente
que temeu o povo e atendeu à sua voz. Tal atitude contraria o princípio
fundamental do temor de YWHW como base da fidelidade pactual, conforme
Deuteronômio 6 vs2,13 e 10:12. O rei, segundo a Torá, deveria ser o primeiro a
encarnar o temor reverente a Deus, não alguém moldado pela pressão social.
Há ainda o pecado da autoexaltação
e da busca por honra pessoal. No v12, Saul erige para si um monumento em
Carmelo após a campanha contra Amaleque. Esse gesto contrasta com a ética da
liderança israelita prescrita em Deuteronômio 17:20, que adverte o rei a não
elevar o seu coração acima de seus irmãos. A construção de um memorial pessoal
sugere que Saul interpreta a vitória como conquista própria, e não como ato de
Yahweh.
A soma desses pecados revela uma
transgressão mais profunda: a rejeição prática da soberania divina. No v23,
Samuel equipara a rebeldia de Saul ao pecado de feitiçaria e a obstinação à
idolatria, categorias severamente condenadas na Lei, conforme Deuteronômio
18:10–12 e Êxodo 20:3–5. A idolatria, no contexto da aliança, não se limita ao
culto a outros deuses, mas inclui a substituição da vontade de Deus pela
vontade humana.
Assim, a rejeição de Saul não decorre de um erro isolado, mas de uma sequência coerente de violações da Torá: usurpação cultual, desobediência profética, violação do herem, racionalização religiosa do pecado, temor dos homens, autoexaltação e rejeição da soberania divina.
A narrativa bíblica apresenta Saul como o paradigma do rei segundo o
desejo do povo, cuja queda confirma que, em Israel, a legitimidade régia
depende não de força, carisma ou poder político, mas de submissão integral à
Lei de Yahweh.

Ensinamentos para se observados por todos o povo de Deus.
ResponderExcluirObediência a Deus!!