Em 1Samuel 19:13 o relato búblico diz que Mical “tomou os ídolos do lar” e os colocou na cama para simular a presença de Davi.
O termo hebraico aqui utilizado é terafim, e sua presença na casa de Davi levanta uma questão teológica importante, especialmente à luz da proibição explícita da idolatria na fé israelita.
O Decálogo, a carta magna da Aliança proibe esse tipo de idolatira - "Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem embaixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não te encurvarás a elas nem as servirás; porque eu, o Senhor teu Deus, sou Deus zeloso" Êxodo 20:4,5.
A presença do terafim é explicada a partir da origem familiar de Mical. Ela cresceu na casa de Saul, um rei cuja trajetória espiritual foi marcada por desobediência progressiva, rejeição da palavra profética e afastamento de YHWH.
Esse tipo de detalhe, a idolatria, explica em muito
a degradação espiritual de Saul. Se a filho do rei mantinha tais ídolos no
palácio, o que mais estaria dentro dessa côrte?
Assim, é evidente que a casa real
mantivesse elementos de religiosidade popular ou sincrética, incluindo ídolos
domésticos, e que Mical os tenha levado consigo ao casar-se com Davi.
E a postura de Davi em sua casa?
Mical sendo a filha do rei tinham autonomia para certas coisas, e Davi, embora
esposo, parece não interferir nesses hábitos da esposa. Providencialmente mais
tarde, Mical sai da vida de Davi e dada em casamento a outra pessoa.
O autor bíblico parece incluir
esse detalhe da idolatira na casa de Mical de forma intencional e crítica. A presença de ídolos do lar expõe a tensão entre a fé ideal exigida pela aliança e a prática dentro
do palácio do rei. Ao mesmo tempo, reforça o contraste entre Davi, preservado
por Deus, e a casa de Saul, espiritualmente comprometida. Assim, o texto denuncia
de modo indireto essa idolatria, revelando o estado espiritual da casa de Saul
e a espiritualidade comprometida do próprio rei.
Ídolos do Lar
Eram estátuas ou estatuetas como objetos cultuais domésticos amplamente atestados no antigo
Oriente Próximo, cuja função e significado devem ser compreendidos a partir de
dados bíblicos, históricos e religiosos.
Do ponto de
vista lexical, "terafim" (o termo hebraico) aparece sempre no plural na Bíblia Hebraica, embora
muitas vezes se refira a um único objeto. A etimologia do termo não é
totalmente clara, mas seu uso consistente associa os terafim a práticas
religiosas não autorizadas pela lei mosaica. Eles são mencionados em contextos
domésticos (Gênesis 31:19, 34; Juízes 17:5; 18:14–20) e também em listas de
práticas condenadas (1 Samuel 15:23; Zacarias 10:2), o que indica seu caráter
problemático do ponto de vista teológico.
Historicamente,
os ídolos do lar funcionavam como representações divinas ou semi-divinas
ligadas à proteção da casa, à busca de orientação espiritual e, em alguns
contextos, à legitimação de herança e autoridade familiar. Textos do antigo
Oriente Próximo sugerem que a posse de terafim podia estar associada a direitos
legais sobre a família ou a propriedade, o que ajuda a explicar por que Raquel
os rouba da casa de Labão em Gênesis 31. Assim, os terafim não eram apenas
objetos devocionais, mas símbolos religiosos com implicações sociais e
jurídicas.
Religiosamente,
os terafim eram usados como meios de consulta e adivinhação. Isso é confirmado
por passagens como Ezequiel 21:21, onde o rei da Babilônia consulta ídolos para
obter direção, e por Zacarias 10:2, que associa os terafim a oráculos falsos. Nesse
sentido, eles representavam uma alternativa ilegítima à revelação divina
mediada pela lei, pelos profetas e pelo sacerdócio.
Do ponto de
vista teológico bíblico, os terafim simbolizam o sincretismo (mistura) religioso
recorrente em Israel, especialmente em períodos de fragilidade espiritual, como
a época dos juízes e o início da monarquia. Embora fossem tolerados
culturalmente em certos lares, eram incompatíveis com a fé no Senhor como único
Deus e com a proibição explícita de imagens cultuais. Por isso, os profetas e
os autores históricos os apresentam de forma crítica, nunca como elementos
legítimos da adoração israelita.
Em síntese, os
ídolos do lar eram objetos religiosos domésticos usados para proteção,
orientação e legitimação familiar, derivados de práticas do antigo Oriente
Próximo. Na narrativa bíblica, sua presença revela desvio da aliança e
compromisso religioso incompleto, funcionando como sinal de infidelidade
espiritual e não como expressão autêntica da fé israelita.
Uma reflexão – o que há em nossas vidas que pode revelar idolatria? Hoje, as imagens e esculturas não são mais indicação de idolatria apenas. A idolatria pode estar na própria atitude do indivíduo.
Saul é acusado disso quando se rebelou da vontade expressa na Lei de Deus – “a rebelião é como o pecado da feitiçaria, e a obstinação é como a idolatria e o culto a ídolos do lar” capítulo 15 v23.
Assim, por vezes, nossa
postura e estilo de vida podem ter o vírus da idolatria do eu, idolatria do
corpo, idolatria do dinheiro, idolatria do sexo, idolatria de pessoas como
políticos, artistas, músicos, esportistas etc. Tudo que amamos acima de Deus é
um ídolo em nossa vida.

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