A
partir desses elementos, é possível construir um argumento consistente de que o
judeu do tempo de Jesus não divergia radicalmente das descrições fenotípicas
preservadas nas Escrituras Hebraicas e que, em certos aspectos, contrasta com
reconstruções modernas excessivamente homogeneizadas ou africanizadas propostas
por alguns estudos arqueológicos e antropológicos contemporâneos.
- As
descrições bíblicas e o fenótipo israelita no segundo milênio a.C.
Os textos de Gênesis 25:25 e 27:11 descrevem Esaú como “ruivo” (hebraico ’admoni), além de peludo, indicando uma coloração avermelhada associada tanto à pele quanto aos cabelos.
Séculos mais tarde, em 1 Samuel 16:12, Davi é descrito com o mesmo termo ’admoni, acrescido da observação de que possuía belos olhos e boa aparência.
O uso reiterado desse vocábulo em
contextos distintos sugere que tal característica não era excepcional ou
exótica, mas reconhecível dentro do horizonte fenotípico israelita.
- A
aliança e a restrição matrimonial como fator de continuidade étnica
Um elemento central da identidade israelita é a aliança com
YHWH, que inclui cláusulas explícitas de separação das nações vizinhas,
especialmente no âmbito matrimonial. A Torá apresenta de forma reiterada a
proibição de alianças matrimoniais com povos estrangeiros quando estas
implicassem assimilação religiosa, cultural e identitária.
Em Êxodo 34:15–16, o texto adverte que Israel não deveria
fazer aliança com os habitantes da terra, “para que não suceda que, ao
prostituírem-se eles após os seus deuses, e sacrificarem aos seus deuses,
alguém te convide, e comas dos seus sacrifícios, e tomes das suas filhas para
teus filhos, e as filhas deles, prostituindo-se após os seus deuses, façam
também teus filhos prostituírem-se após os seus deuses”. A preocupação central
é a preservação da fidelidade a YHWH, mas essa fidelidade está diretamente ligada
à preservação do grupo.
Deuteronômio 7:3–4 reforça o mesmo princípio ao ordenar: “Nem contrairás matrimônio com elas; não darás tuas filhas a seus filhos, nem tomarás suas filhas para teus filhos; pois desviariam teus filhos de mim”. Aqui, a separação matrimonial é apresentada como salvaguarda espiritual e identitária.
Esse ideal normativo reaparece na história de Israel sempre que a identidade do povo se encontra ameaçada. No período pós-exílico, quando a comunidade retorna do cativeiro babilônico, o rigor quanto à genealogia e à separação é intensificado. Esdras 9:1–2 registra a denúncia de que o povo, os sacerdotes e os levitas “não se separaram dos povos destas terras” e que “misturaram a linhagem santa com os povos das terras”. A expressão “linhagem santa” revela que a preocupação não era apenas religiosa, mas também étnico-genealógica.
Esdras 10:10–11 apresenta a exortação direta para a ruptura
desses casamentos: “Vós transgredistes, tomando mulheres estrangeiras,
aumentando assim a culpa de Israel. Agora, pois, fazei confissão ao Senhor,
Deus de vossos pais, e separai-vos dos povos da terra e das mulheres
estrangeiras”. O texto associa explicitamente o casamento exogâmico à
transgressão da aliança.
Neemias retoma o mesmo tema com ainda maior severidade.
Neemias 13:23–27 descreve judeus que haviam se casado com mulheres asdoditas,
amonitas e moabitas, cujos filhos já não falavam a língua judaica. Neemias
interpreta esse fato como ameaça direta à identidade do povo e recorda o
exemplo negativo de Salomão, afirmando que até mesmo um rei escolhido foi
levado ao pecado por mulheres estrangeiras.
Esses textos demonstram que a restrição matrimonial não foi
episódica, mas estrutural na autoconsciência israelita. Embora tais normas nem
sempre tenham sido observadas de modo absoluto, elas funcionaram como ideal
regulador permanente, especialmente no judaísmo do Segundo Templo. Esse rigor
favoreceu, ao longo dos séculos, a preservação de uma identidade étnica
relativamente coesa, o que contribui para explicar a continuidade fenotípica do
povo judeu desde a Antiguidade até o período do primeiro século.
- Do
Segundo Templo ao primeiro século d.C.
No primeiro século, o judaísmo palestino já havia
atravessado sucessivas dominações estrangeiras, mas manteve uma forte
consciência identitária. A pertença ao povo judeu não era apenas religiosa, mas
também genealógica. As listas de ascendência, a distinção entre judeus e
gentios e a resistência à assimilação helenística indicam uma sociedade que se
compreendia como etnicamente distinta.
Nesse cenário, não há razões históricas sólidas para supor
uma mudança radical no fenótipo judaico entre o período monárquico e o tempo de
Jesus. A continuidade populacional na Judeia, aliada à endogamia relativa,
sugere que o judeu do primeiro século compartilhava características físicas
semelhantes às descritas nos textos veterotestamentários: pele em tons claros a
castanhos, cabelos variando do castanho ao ruivo, e traços típicos do Levante
mediterrâneo.
- A
observação etnográfica dos judeus atuais de Jerusalém
A presença contemporânea de comunidades judaicas em
Jerusalém oferece um dado empírico relevante, ainda que deva ser utilizado com
cautela metodológica. Judeus asquenazes, sefarditas e mizrahim apresentam
diversidade interna, mas, mesmo após dois milênios de diáspora, muitos grupos
mantiveram práticas endogâmicas rigorosas, o que contribuiu para a preservação
de traços fenotípicos específicos.
Particularmente entre judeus oriundos do Oriente Médio e do
Mediterrâneo, observa-se um espectro físico que inclui pele clara a morena,
cabelos escuros ou avermelhados e traços faciais levantinos. A existência de
judeus ruivos ou de pele clara em Jerusalém contemporânea demonstra que tais
características não são anomalias tardias, mas fazem parte da herança genética
judaica de longa duração.
- Avaliação
crítica de reconstruções arqueológicas e antropológicas modernas
Algumas reconstruções modernas da aparência dos judeus do
primeiro século tendem a enfatizar um fenótipo uniformemente escuro, por vezes
aproximando-o de populações subsaarianas. Tais propostas, embora frequentemente
apresentadas como científicas, extrapolam os dados disponíveis e ignoram tanto
a diversidade interna das populações antigas quanto a evidência textual
bíblica.
A arqueologia raramente fornece dados diretos sobre
coloração de pele ou cabelo, e a antropologia física, quando aplicada ao
Levante, aponta para populações mediterrâneas diversas, não monolíticas. Ao
desconsiderar as descrições bíblicas, a continuidade histórica das comunidades
judaicas e a observação etnográfica atual, essas reconstruções acabam por impor
modelos ideológicos modernos a realidades antigas complexas.
- Síntese
argumentativa
Com base na evidência textual-histórica das Escrituras, nos
termos da aliança que promoveram forte coesão étnica e na observação das
comunidades judaicas atuais de Jerusalém, é plausível afirmar que a aparência
do judeu do primeiro século não divergia de modo radical das descrições
veterotestamentárias de figuras como Esaú e Davi. O fenótipo judaico antigo
deve ser compreendido como levantino-mediterrâneo, variado internamente, mas
distante de caricaturas modernas que ignoram a continuidade histórica e a autoconsciência
étnica do povo judeu.
Esse quadro não elimina a diversidade, mas reafirma que a
identidade judaica, moldada pela aliança com YHWH e pela resistência à
assimilação, produziu uma notável estabilidade fenotípica ao longo de milênios,
da época patriarcal ao período do Segundo Templo e até a Jerusalém
contemporânea.
Conclusão:
Baseado na descrição histórica do texto bíblico e do rigor
da aliança que especialmente os judeus seguiam, podemos concluir que a
aparência do judeu comum no primeiro século diverge daquela que estudos
recentes indicam, como de judeu “histórico, moreno, baixinho e mantinha os
cabelos aparados, como os outros judeus de sua época”.
As evidências dos atuais judeus que residem em Jerusalém é
que a aparência é bem divergente desses estudos que ignoram a evidencia do
texto histórico das Escrituras. E que a partir dessas duas evidências
fundamentais a aparência é em tons de pele claros a castanho, cabelos variando
do castanho ao ruivo, e traços típicos do Levante mediterrâneo.





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