quinta-feira, 20 de agosto de 2026

QUATRO PERGUNTAS INQUIETANTES

O Salmo 13 traz repetidamente uma pergunta – “até quando Yahweh” Salmo 13:1.

Essa pergunta é repetida 59 vezes em toda Bíblia, sendo 52 vezes no AT e 7 vezes no NT. Ela expressa a angústia do crente em esperar a intervenção de Deus na história humana ou na sua própria história pessoal.

Isso porque Deus oferece promessas, soluções e um cenário do fim de todo o mal. Mas a solução não está no nosso tempo esperado, e sim no tempo soberano de Yahweh. Mas nós somos imediatistas; o próprio século em que vivemos, e a cultura cibernética que estamos inseridos, oferece experiências imediatas.

 Aqui a pergunta – “até quando” – ganha muito significado. Porque vivemos na expectativa do tempo – da segunda vinda do Espírito Santo, da segunda vinda de Jesus, do surgimento da era da nova terra, da vida eterna. ‘Até quando’ teremos de esperar por essas realidades e experiências?

O Tempo do Salmista

O salmista repete 4 vezes essa pergunta – “até quando?”. Ele esperava a ação de Deus; e questionava o tempo da ação Divina.

A autoria desse salmo é atribuída a Davi, e as perguntas que ele fazia eram sobre o tempo que ele seria livre do seu inimigo (v4) que era Saul. O tempo que Davi esperava era onde ele seria livre de sua perseguição, alcançaria o seu reinado ao qual fora ungido, e por fim alcançaria a promessa Divina. As 4 perguntas de Davi são nesse contexto.

Hoje ainda usamos do mesmo questionamento em relação ao tempo que permanecemos aqui neste mundo e Jesus não retorna; da mesma forma um tempo de perseguição e opressão do mal.

 A Primeira Pergunta

A pergunta do Salmo 13:1 - Até quando, Yahweh, te esquecerás de mim? Será para sempre?… expressa a sensação de abandono: “Deus se esqueceu de mim”. Há textos que respondem diretamente a essa pergunta:

 Isaías 49:14–16 — “Sião diz: YAHWEH me desamparou, Yahweh se esqueceu de mim. [...] Eu não me esquecerei de você. Eis que nas palmas das minhas mãos eu a gravei.”

 Salmo 9:12 — “Pois aquele que requer o sangue se lembra dos aflitos e não se esquece do clamor deles.”

 Salmo 10:12 — “Levanta-te, YAHWEH [...] não te esqueças dos aflitos.”

 Salmo 27:9–10 — “Ainda que meu pai e minha mãe me abandonem, YAHWEH me acolherá.”

 Salmo 31:22 — “Eu disse na minha pressa: ‘Fui excluído da tua presença.’ Não obstante, ouviste a voz das minhas súplicas, quando clamei a ti.”

Salmo 77:8–11 — “Cessou para sempre a sua graça? [...] Esqueceu-se Deus de ser bondoso? [...] Recordarei os feitos do YAHWEH.”

 Salmo 102:17 — “Ele atendeu à oração do desamparado e não lhe desdenhou as preces.”

Isaías 54:7–8 — “Por breve momento te deixei, mas com grandes misericórdias tornarei a acolher-te [...] com misericórdia eterna me compadeço de ti.”

 Isaías 41:10 — “Não temas, porque eu sou contigo; não te assombres, porque eu sou o teu Deus; eu te fortaleço, e te ajudo.”

 Deuteronômio 31:8 — “YAHWEH é quem irá adiante de você; ele estará com você, não o deixará, nem o abandonará.”

 Hebreus 13:5 — “De maneira alguma deixarei você, nunca jamais o abandonarei.”

 Romanos 8:38–39 — “Nem morte, nem vida [...] nem qualquer outra criatura poderá nos separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus.”

Talvez a resposta bíblica mais direta esteja em Isaías 49:14–16, porque Deus responde praticamente à mesma acusação:

Pergunta do homem: “O Yahweh se esqueceu de mim.” (Is 49:14)

Resposta de Deus: “Eu não me esquecerei de você. Eis que nas palmas das minhas mãos eu a gravei.” (Is 49:15–16)

A Segunda Pergunta

 O salmista continua seu questionamento — “Até quando esconderás de mim o teu rosto?” — há uma resposta especialmente bela na bênção sacerdotal:  “YAHWEH faça resplandecer o seu rosto sobre você e tenha misericórdia de você; YAHWEH sobre você levante o seu rosto e lhe dê a paz.” (Nm 6:25–26)

 Há uma verdade espiritual profunda nessa comparação. Salmo 13 descreve como a ausência de Deus é sentida pelo ser humano; outros textos revelam a realidade vista do lado de Deus.

Davi sente: “Ele se esqueceu de mim.”

Deus responde: “Eu não me esquecerei de você.”

Davi pergunta: “Será para sempre?”

Deus responde: “Com misericórdia eterna me compadeço de você.” (Is 54:8)

Davi lamenta: “Escondeste de mim o teu rosto.”

Deus promete: “Farei resplandecer o meu rosto sobre você.” (cf. Nm 6:25)

 Portanto, a sensação de abandono é real; mas o abandono não precisa ser. O Salmo 13 permite que o crente diga honestamente como a ausência de Deus lhe parece, enquanto o restante das Escrituras lhe dá razões para continuar crendo mesmo quando ainda não consegue perceber Sua presença.

A Terceira Pergunta

 Essa pergunta do Salmo 13:2 nasce de um coração que sofre prolongadamente: “Até quando estarei eu relutando dentro de minha alma, com tristeza no coração cada dia?”

 Há vários textos bíblicos que funcionam quase como respostas de Deus a essa angústia:

Salmo 30:5 — “Ao anoitecer, pode vir o choro, mas a alegria vem pela manhã.”

Salmo 34:17–18 — “Clamam os justos, e YAHWEH os escuta e os livra de todas as suas tribulações. Perto está YAHWEH dos que têm o coração quebrantado.”

 Salmo 42:11 — “Por que estás abatida, ó minha alma? [...] Espera em Deus, pois ainda o louvarei.”

 Salmo 55:22 — “Entrega os teus cuidados a YAHWEH, e ele te susterá.”

 Salmo 126:5 — “Os que com lágrimas semeiam com júbilo ceifarão.”

 Isaías 41:10 — “Não temas, porque eu sou contigo [...] eu te fortaleço, e te ajudo, e te sustento.”

 Isaías 49:14–16 — “Sião diz: YAHWEH me desamparou [...] Eu não me esquecerei de ti. Eis que nas palmas das minhas mãos te gravei.”

 Isaías 61:3 — Deus promete dar “óleo de alegria, em vez de pranto, veste de louvor, em vez de espírito angustiado”.

 Lamentações 3:31–33 — “Yahweh não rejeitará para sempre. Pois, ainda que entristeça a alguém, usará de compaixão segundo a grandeza das suas misericórdias.”

 Mateus 5:4 — “Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados.”

 Mateus 11:28 — “Venham a mim todos vocês que estão cansados e sobrecarregados, e eu os aliviarei.”

 João 14:1 — “Não se turbe o coração de vocês. Creiam em Deus, creiam também em mim.”

 João 16:20,22 — “Vocês ficarão tristes, mas a tristeza de vocês se transformará em alegria [...] ninguém poderá tirar essa alegria de vocês.”

 2 Coríntios 4:17–18 — “A nossa leve e momentânea tribulação produz para nós eterno peso de glória.”

 2 Coríntios 7:6 — “Deus, que consola os abatidos, nos consolou.”

 Filipenses 4:6–7 — “Não fiquem preocupados com coisa alguma [...] e a paz de Deus [...] guardará o coração e a mente de vocês.”

 1 Pedro 5:7 — “Lancem sobre ele todas as suas ansiedades, porque ele cuida de vocês.”

 Apocalipse 21:4 — “E lhes enxugará dos olhos toda lágrima [...] já não haverá luto, nem pranto, nem dor.”

 Mas talvez a resposta mais bonita esteja dentro do próprio Salmo 13. Davi começa perguntando quatro vezes “Até quando?” (vv. 1–2), porém termina dizendo: “Eu, porém, confio na tua misericórdia; o meu coração se alegra na tua salvação. Cantarei ao YAHWEH, porque me tem feito muito bem.” (Sl 13:5–6)

 As circunstâncias não necessariamente mudaram entre o verso 2 e o verso 5. Mudou o lugar para onde Davi estava olhando. No verso 2 ele olha para dentro: “minha alma... meu coração... minha tristeza”. No verso 5 ele olha para Deus: “tua misericórdia... tua salvação”.

 Assim, a resposta bíblica ao “Até quando terei tristeza no coração?” não é que o fiel nunca experimentará tristeza. É que a tristeza não terá a palavra final.

 Talvez João 16:22 seja a resposta de Cristo que mais diretamente completa o pensamento do salmista: “Agora vocês estão tristes, mas eu os verei outra vez; o coração de vocês se alegrará.” O Salmo pergunta: “Até quando?” A esperança bíblica responde: não para sempre.

A Quarta Pergunta

A última das 4 perguntas é sobre o inimigo do salmista — “Até quando se erguerá contra mim o meu inimigo?” — esse questionamento encontra respostas especialmente nos textos que prometem que o domínio dos inimigos é temporário e Deus finalmente intervém em favor do justo:

 Salmo 9:3–4 — “Pois, ao retrocederem os meus inimigos, tropeçam e somem da tua presença. Pois sustentas o meu direito e a minha causa.”

 Salmo 18:3 — “Invoco Yahweh, digno de ser louvado, e serei salvo dos meus inimigos.”

 Salmo 27:2 — “Quando malfeitores me sobrevêm para me destruir [...] eles é que tropeçam e caem.”

 Salmo 34:19 — “Muitas são as aflições do justo, mas Yahweh de todas o livra.”

 Salmo 37:9–10 — “Os malfeitores serão exterminados [...] mais um pouco de tempo, e já não existirá o ímpio.”

 Salmo 41:11 — “Com isto conheço que tu te agradas de mim: em não triunfar contra mim o meu inimigo.”

 Salmo 46:1 — “Deus é o nosso refúgio e fortaleza, socorro bem presente nas tribulações.”

 Salmo 54:7 — “Pois ele me livrou de todas as tribulações; e os meus olhos viram a ruína dos meus inimigos.”

 Salmo 56:9 — “No dia em que eu te invocar, baterão em retirada os meus inimigos; bem sei isto: que Deus é por mim.”

 Salmo 92:9 — “Eis que os teus inimigos, Yahweh [...] perecerão.”

 Salmo 118:6 — “Yahweh está comigo; não temerei. Que me poderá fazer o homem?”

 Isaías 41:11–12 — “Eis que envergonhados e confundidos serão todos os que estão indignados contra você [...] você os procurará, mas não os encontrará.”

 Isaías 54:17 — “Toda arma forjada contra você não prosperará.”

 Romanos 8:31 — “Se Deus é por nós, quem será contra nós?”

 Romanos 8:35,37 — “Quem nos separará do amor de Cristo? [...] em todas estas coisas somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou.”

 2 Tessalonicenses 1:6–7 — “É justo para Deus que ele dê em paga tribulação aos que atribulam vocês e que dê a vocês [...] alívio.”

 2 Timóteo 4:18 — “O Senhor me livrará também de toda obra maligna e me levará salvo para o seu Reino celestial.”

 Apocalipse 12:10–11 — “Foi expulso o acusador dos nossos irmãos [...] eles o venceram por causa do sangue do Cordeiro.”

 Apocalipse 20:10 — o grande adversário finalmente recebe seu julgamento definitivo.

 Entre eles, Salmo 37:10 talvez seja a resposta mais direta à essa última pergunta: “Até quando se erguerá contra mim o meu inimigo?” (Sl 13:2)

Resposta: “Mais um pouco de tempo, e já não existirá o ímpio; você procurará o lugar dele, e ele não estará lá.” (Sl 37:10)

 E o Novo Testamento leva essa resposta à sua dimensão final. O “inimigo” deixa de ser apenas o adversário humano e chega ao último inimigo de toda a humanidade: “O último inimigo a ser destruído é a morte.” (1Co 15:26)

 Assim, a resposta bíblica ao “Até quando?” do salmista é novamente: não para sempre. O mal pode erguer-se, ameaçar e aparentemente prevalecer por algum tempo, mas não possui permanência. Deus estabeleceu um limite para o triunfo do inimigo.

Conclusão

As quatro perguntas do Salmo 13 revelam quatro dores profundamente humanas: sentir-se esquecido por Deus, não perceber Sua presença, lutar diariamente com a tristeza e ver o inimigo aparentemente prevalecer.

Davi não esconde nenhuma delas. Ele transforma sua angústia em oração. E talvez essa seja a primeira grande lição: quando não entendemos Deus, ainda podemos falar com Deus. A fé não é ausência de perguntas; é continuar dirigindo nossas perguntas Àquele em quem ainda confiamos.

As Escrituras respondem aos quatro “Até quando?”: Deus não se esqueceu de você (Is 49:15); Seu rosto voltará a resplandecer (Nm 6:25); o choro não durará para sempre (Sl 30:5); e o inimigo não terá a última palavra (Sl 37:10).

Por isso, o salmista termina muito diferente de como começou: “Eu, porém, confio na tua misericórdia; o meu coração se alegra na tua salvação.” (Sl 13:5)

Observe: ele não diz “eu compreendo”. Diz “eu confio”.

Essa é a espiritualidade do Salmo 13. Existem momentos em que não teremos respostas para todos os nossos “por quês” nem saberemos “até quando” determinada situação permanecerá. Nesses momentos, podemos fazer como Davi: transformar perguntas em oração, tristeza em confiança e espera em esperança.

Porque aquilo que hoje nos faz perguntar “Até quando, Senhor?” ainda poderá nos fazer dizer: “Cantarei a Yahweh, porque me tem feito muito bem.” (Sl 13:6).

Nenhum comentário:

Postar um comentário