Quando o
salmista ergueu os olhos para o céu noturno, não possuía telescópio. Não
conhecia galáxias espirais, estrelas de nêutrons, superaglomerados ou
exoplanetas. Não sabia que a Via Láctea se estende por mais de 100 mil
anos-luz, nem que existem bilhões de outras galáxias no universo observável.
Mas compreendeu algo fundamental: o céu possui uma capacidade extraordinária de
conduzir a mente humana para além de si mesmo.
Para o
salmista, a criação não era Deus. Era obra de Deus. Os céus não deveriam ser
adorados; deveriam levar o observador a adorar Aquele cujas “mãos” os fizeram.
Quanto mais a astronomia amplia nosso horizonte, mais impressionante se torna a
linguagem do Salmo 19. A ciência descreve dimensões, distâncias, massas,
temperaturas e estruturas. O salmista faz outra pergunta: o que tudo isso
desperta no coração daquele que crê no Criador? A resposta do salmista é:
glória.
1. Céus e firmamento: o universo visto pelos
olhos hebraicos
Duas palavras
são fundamentais em Salmo 19:1. A primeira é שָׁמַיִם (šāmayim), “céus”. É uma
palavra ampla no hebraico bíblico. Dependendo do contexto, pode designar o céu
atmosférico, a região dos corpos celestes ou os céus associados à habitação
divina. Não corresponde exatamente ao conceito científico moderno de “espaço
sideral”.
A segunda é רָקִיעַ
(rāqîaʿ), normalmente traduzida como “firmamento”, “expansão” ou “abóbada”. O
termo deriva da raiz רקע (rāqaʿ), associada à ideia de estender ou espalhar. Em
Gênesis 1:6–8, o rāqîaʿ separa as águas e recebe o nome de “céus”. Em Salmo 19,
é aquilo que o observador contempla acima de si e que “anuncia” a obra de Deus.
É importante
não transformar essa linguagem fenomenológica antiga em um tratado de
astrofísica moderna. Davi descreve o céu como ele aparece ao observador
terrestre. O objetivo do poema não é explicar a estrutura física do cosmos, mas
identificar seu significado teológico.
E os dois
verbos utilizados são eloquentes:
“Os céus proclamam...”
“O firmamento anuncia...”
A criação
torna-se uma espécie de pregador silencioso. É exatamente o que os versos
seguintes dizem: “Um dia discursa a outro dia, e uma noite revela conhecimento
a outra noite. Não há linguagem, nem há palavras, e deles não se ouve nenhum
som; no entanto, por toda a terra se faz ouvir a sua voz.” (Sl 19:2–4)
O universo não
possui voz, mas comunica. Não possui palavras, mas testemunha. Não possui
púlpito, mas proclama. A grandiosidade do cosmos e suas dimensões astronômicas são
evidência de um Criador, de uma criação planejada e um Ser inteligente e
poderoso no processo de condução do universo.
2. Sol, Lua e estrelas: criaturas, não deuses
Essa
compreensão possuía enorme significado no mundo do Antigo Oriente Próximo.
Povos vizinhos de Israel frequentemente associavam os corpos celestes às suas
divindades.
A Bíblia
realiza uma desmitologização radical do céu. Em Gênesis, o Sol e a Lua nem
sequer recebem seus nomes habituais na narrativa da criação. São simplesmente o
“luzeiro maior” e o “luzeiro menor” (Gn 1:16). E então aparece quase
discretamente: “e fez também as estrelas.”
Aquilo que
poderia ser objeto de culto entre outros povos é apresentado pela Escritura
como criatura. O Sol não é Deus. A Lua não é uma deusa. As estrelas não
governam o destino humano. Todas são obras daquele que as criou.
Por isso Israel
recebeu uma advertência explícita contra olhar para “o sol, a lua e as
estrelas, todo o exército dos céus” e ser levado a adorá-los (Dt 4:19; cf.
17:3).
O Salmo 19
segue exatamente essa teologia. O Sol, impressionante como é, não recebe
adoração. Ele é poeticamente comparado a um noivo saindo de seu aposento e a um
herói percorrendo seu caminho (Sl 19:4–6).
O Sol não é
Deus. O Sol proclama Deus. Essa distinção é decisiva. O céu não é
divino. O céu declara a glória de Deus.
3. Quando descobrimos o tamanho do Universo
É aqui que a
astronomia moderna torna a afirmação de Davi ainda mais impressionante para o
leitor contemporâneo.
A NASA descreve
o universo como a totalidade do espaço, matéria e energia. Nosso Sol é apenas
uma entre centenas de bilhões de estrelas da Via Láctea, e nossa galáxia é
apenas uma entre bilhões de galáxias no universo observável.
A Via Láctea
possui um disco estelar com mais de 100 mil anos-luz de extensão. Nosso Sistema
Solar está situado num de seus braços espirais, e uma única volta ao redor da
galáxia leva aproximadamente 240 milhões de anos.
Um ano-luz
corresponde à distância percorrida pela luz em um ano — aproximadamente 9,46
trilhões de quilômetros. Portanto, dizer que nossa galáxia possui mais de 100
mil anos-luz significa que um raio de luz, viajando a cerca de 300 mil
quilômetros por segundo, precisaria de mais de 100 mil anos para atravessá-la. E
essa é apenas nossa galáxia.
O salmista olhava
para aquela faixa esbranquiçada que atravessava o céu sem saber que estava
olhando, de dentro, para uma gigantesca estrutura contendo centenas de bilhões
de estrelas. Hoje podemos olhar para a mesma Via Láctea e dizer com uma
percepção de escala que o salmista não possuía: “Os céus proclamam a glória de Deus.”
A astronomia
não tornou o céu menor. Tornou nossa percepção dele imensamente maior.
4. Um universo de galáxias
Uma galáxia é
uma gigantesca estrutura gravitacional composta por estrelas, gás, poeira,
matéria escura e outros componentes. E elas não são todas iguais.
Há galáxias
espirais, com braços que parecem girar ao redor de um núcleo; outras são galáxias
elípticas, variando de quase esféricas a extremamente alongadas. Há galáxias
irregulares, sem a simetria das anteriores. E ainda há galáxias
anãs com apenas alguns milhares de anos-luz de extensão e elípticas gigantes
que podem alcançar cerca de 300 mil anos-luz de diâmetro. Mas a organização não termina na galáxia.
A Via Láctea
pertence ao Grupo Local, uma vizinhança de mais de 50 galáxias. Entre elas está
Andrômeda, nossa grande vizinha galáctica. O Grupo Local, por sua vez,
encontra-se nas proximidades do aglomerado de Virgem e integra a região do
superaglomerado Laniakea. Em escalas ainda maiores, aglomerados,
superaglomerados, enormes vazios e “paredes” de galáxias compõem aquilo que os
cosmólogos chamam de teia cósmica.
Assim diante dessas
dimensões quase incompreensíveis, o salmista afirma que “os céus proclamam a
glória de Deus.” A palavra hebraica traduzida por “glória”, כָּבוֹד (kāḇôḏ),
está associada à ideia de peso, importância, honra, majestade. Diante das
escalas cósmicas, a palavra parece extraordinariamente apropriada.
5. Estrelas: uma diversidade quase
inimaginável
À primeira
vista, uma estrela parece apenas um ponto luminoso. A astronomia revelou outra
realidade. Há estrelas de cores, massas, temperaturas, luminosidades e
dimensões profundamente diferentes. Cerca de 90% das estrelas pertencem à
sequência principal, na qual ocorre fusão de hidrogênio em seus núcleos. Mesmo
dentro dessa categoria, a NASA registra uma enorme faixa: aproximadamente 0,1 a
200 massas solares.
Existem
pequenas anãs vermelhas, relativamente frias e longevas. Existem estrelas
semelhantes ao Sol. Há outras estrelas gigantes e supergigantes vermelhas, como
Betelgeuse e Antares. Existem anãs brancas, remanescentes extremamente densos
de estrelas. Há ainda as estrelas de nêutrons, nas quais uma quantidade
extraordinária de matéria é comprimida em dimensões comparáveis às de uma
cidade.
Nosso próprio
Sol tem aproximadamente 1,39 milhão de quilômetros de diâmetro. A Terra poderia
ser colocada cerca de 109 vezes lado a lado através de seu diâmetro. E o Sol
não é uma estrela excepcionalmente grande. Há estrelas cujo raio é centenas de
vezes maior que o sol.
É difícil olhar
para essa variedade e não sentir a força poética de outro salmo: “Conta o
número das estrelas, chamando-as todas pelo seu nome. Grande é o nosso Senhor e
mui poderoso; o seu entendimento não se pode medir” (Sl 147:4–5). O que para
nós é incontável, para o salmista está diante do conhecimento de Deus.
6. Mundos ao redor de outros sóis
Durante a maior
parte da história humana, os planetas conhecidos eram os poucos mundos visíveis
pertencentes ao nosso Sistema Solar. Isso mudou dramaticamente.
Em julho de
2026, o NASA Exoplanet Archive registrava 6.319 exoplanetas confirmados —
planetas orbitando outras estrelas — além de milhares de candidatos aguardando
confirmação. E a diversidade encontrada é extraordinária. Há gigantes gasosos
maiores que Júpiter. Há pequenos mundos rochosos como a Terra.
Há
“super-Terras”, categoria que não possui equivalente exato em nosso Sistema
Solar. Há planetas tão próximos de suas estrelas que completam um “ano” em
poucos dias. Há planetas orbitando duas estrelas. E há mundos errantes que
atravessam o espaço sem orbitar uma estrela. A NASA estima que a Via Láctea
provavelmente contenha centenas de bilhões de estrelas e possivelmente trilhões
de planetas.
Especial
interesse científico concentra-se na chamada zona habitável: a faixa orbital na
qual, sob condições atmosféricas apropriadas, poderia existir água líquida na
superfície de um planeta. Estar nessa zona, porém, não significa que um planeta
seja habitado ou mesmo necessariamente habitável; é apenas um dos requisitos
físicos relevantes. ([NASA Science][8])
O sistema
TRAPPIST-1 é um exemplo fascinante. Possui sete planetas rochosos
aproximadamente do tamanho da Terra, e três deles — TRAPPIST-1e, f e g —
orbitam na zona habitável da estrela. Observações do James Webb continuam
investigando se esses mundos possuem atmosferas adequadas; os resultados até
agora não autorizam afirmar que sejam habitáveis, muito menos habitados. Esse cuidado
científico é importante.
A astronomia
descobriu mundos potencialmente interessantes para a habitabilidade, não outras
Terras comprovadamente habitadas. Mesmo assim, o fato de termos passado de um
único sistema planetário conhecido para mais de seis mil mundos confirmados é
impressionante. O universo que imaginávamos grande revelou-se ainda mais
diverso.
7. A Terra: sob um extraordinário “firmamento”
Depois de
viajar mentalmente por bilhões de galáxias, podemos fazer o movimento inverso e
retornar à pequena esfera azul onde o salmista escreveu seu salmo - a Terra. Vista
cosmicamente, ela é diminuta. Mas possui características extraordinariamente
adequadas à vida que conhecemos.
Cerca de 71% da
superfície terrestre é coberta pelo oceano, que contém aproximadamente 97% da
água do planeta. E envolvendo essa esfera existe aquilo que, numa associação
fenomenológica — não numa equivalência científica estrita — podemos colocar em
diálogo com o “firmamento” contemplado pelo salmista: nossa atmosfera.
Próximo à
superfície, ela contém aproximadamente:
78% de
nitrogênio;
21% de
oxigênio;
cerca de 1% de
outros gases, principalmente argônio, além de dióxido de carbono, neônio e
outros componentes em pequenas proporções.
Em ar seco,
valores mais precisos são cerca de 78,08% de nitrogênio, 20,95% de oxigênio e
0,93% de argônio; gases-traço completam a pequena fração restante. O vapor
d'água varia conforme região, temperatura e condições meteorológicas.
Essa atmosfera
desempenha funções essenciais. Ela fornece os gases necessários aos sistemas
biológicos terrestres, participa da regulação térmica e ajuda a proteger a
superfície contra radiação prejudicial. A troposfera — a camada mais baixa,
onde vivemos e onde ocorre a maior parte do tempo meteorológico — possui
aproximadamente 8 a 14 quilômetros de espessura, variando conforme a latitude e
outras condições.
Conclusão
Há algo
profundamente belo em terminar aqui. Começamos olhando para bilhões de
galáxias. Atravessamos mentalmente distâncias medidas em milhões e bilhões de
anos-luz.
Contemplamos estrelas gigantescas. Descobrimos
milhares de planetas. Quanto maior o Universo, maior nosso assombro.
Talvez a
expressão mais impressionante de Salmo 19:1 seja também a mais simples: “...o
firmamento anuncia as obras das suas mãos.” É o antropomorfismo. Deus não precisa
possuir mãos humanas para criar. A expressão comunica autoria, intenção e
poder.
E aqui a
astronomia pode produzir uma experiência espiritual peculiar. Observe uma
galáxia fotografada pelo James Webb e pense em suas centenas de bilhões de
estrelas. Depois lembre-se de que existem bilhões de galáxias.
Observe uma
estrela e considere a energia liberada continuamente em seu interior. Observe
um exoplaneta e perceba que existem milhares deles já conhecidos e
provavelmente incontáveis outros ainda não descobertos.
É exatamente
essa experiência que conduz o salmista, em outro salmo, à pergunta: “Quando
contemplo os teus céus, obra dos teus dedos, e a lua e as estrelas que
estabeleceste, que é o homem, para que dele te lembres?” (Sl 8:3–4)
A astronomia
nos ensina algo sobre escala. O Salmo nos ensina algo sobre significado. Somos
pequenos diante da Via Láctea. A Via Láctea é pequena diante do universo
observável. E, para a fé bíblica, tudo isso continua sendo simplesmente: “obra
das tuas mãos”.
O Por isso,
talvez a reação mais adequada diante do céu não seja apenas perguntar “quão
grande é o Universo?”, mas permitir que sua grandeza nos conduza à pergunta que
realmente impressionava o salmista:
Quão grande
deve ser Aquele cuja glória os céus proclamam?
A astronomia
continua aumentando nossa visão do cosmos. E, para aquele que olha para esse
cosmos através das palavras do Salmo 19, cada nova estrela, cada nova galáxia e
cada novo mundo descoberto parece acrescentar mais uma voz ao antigo cântico:
“Os céus proclamam a glória de Deus, e o
firmamento anuncia as obras das suas mãos.”
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