O Concílio Celestial
O livro de Jó costuma ser
lembrado como a grande narrativa bíblica sobre o sofrimento humano. Entretanto,
uma leitura atenta revela que seu verdadeiro cenário não é a terra, mas o Céu.
Antes que Jó perca seus bens, seus filhos ou sua saúde, a narrativa conduz o
leitor para um ambiente completamente diferente: um concílio celestial, onde
seres de outros mundos comparecem diante de Deus e onde a história da
humanidade passa a ser discutida diante do Universo.
Essa mudança de perspectiva é
fundamental para compreender todo o livro. O sofrimento de Jó não começa na
terra, mas em uma reunião realizada no Céu. O drama do patriarca somente pode
ser entendido quando o leitor percebe que existe um tribunal celestial diante
do qual os acontecimentos humanos são apresentados e avaliados.
É exatamente nesse cenário que o
livro introduz uma das mais extraordinárias revelações das Escrituras sobre o
governo divino. O dia em que os filhos de Deus compareceram diante do Senhor; Jó
1:6 afirma que "vieram os filhos de Deus apresentar-se perante o Senhor;
veio também Satanás entre eles". O mesmo episódio reaparece em Jó 2:1,
indicando que essas reuniões não eram eventos isolados, mas faziam parte da
administração do governo divino.
A expressão "apresentar-se
perante o Senhor" possui linguagem claramente judicial e administrativa.
Não descreve simplesmente um momento de adoração, mas uma audiência oficial
diante do Soberano do Universo.
Outro detalhe chama atenção.
Quando Deus pergunta a Satanás de onde ele vinha, a resposta é significativa:
"De rodear a terra e passear por ela" (Jó 1:7). A resposta pressupõe
que os demais participantes vieram de outros lugares. Satanás identifica a
Terra como sua esfera de atuação, sugerindo que os demais representantes
pertencem a outras regiões do domínio divino.
Diversos teólogos adventistas
entendem que os "filhos de Deus" mencionados nesse texto representam
os governantes ou representantes dos mundos não caídos. O Comentário Bíblico
Adventista (SDABC) observa que a expressão pode designar seres celestiais
convocados para um concílio diante do Criador.
Richard M. Davidson acrescenta
que o prólogo de Jó amplia o horizonte do livro ao inserir a experiência humana
dentro de um conflito universal entre o bem e o mal. Ranko Stefanovic observa
que essa reunião revela um governo divino transparente, no qual os
acontecimentos relacionados ao pecado são acompanhados por todo o Universo.
Essa compreensão harmoniza-se com
outras passagens bíblicas que apresentam o Universo como um reino organizado,
governado por Deus diante da observação de inteligências celestiais.
O tribunal celestial reaparece séculos depois
Séculos após Jó, o profeta Daniel
contempla uma cena extraordinariamente semelhante. "Continuei olhando, até
que foram postos uns tronos, e o Ancião de Dias se assentou" (Daniel 7:9).
Em seguida, Daniel descreve milhares de milhares servindo diante de Deus e
milhões de milhões assistindo ao julgamento. "O tribunal se assentou, e
abriram-se os livros" (Daniel 7:10). Poucos versículos depois, o profeta
contempla Cristo dirigindo-se ao mesmo local.
"Vi nas visões da noite, e eis que vinha
com as nuvens do céu um como o Filho do Homem; e dirigiu-se ao Ancião de Dias,
e o fizeram chegar até Ele." (Daniel 7:13) A semelhança entre Daniel e Jó
é impressionante. Em ambos os textos há uma assembleia celestial. Em ambos,
Deus ocupa o centro da cena. Em ambos, seres celestiais comparecem diante do
Senhor. Em ambos, questões relacionadas à humanidade são tratadas naquele
ambiente.
Hans K. LaRondelle observa que
Daniel 7 desenvolve a mesma realidade apresentada no prólogo de Jó, porém agora
descrevendo o momento em que o juízo divino entra em sua fase decisiva. Jon
Paulien destaca que o tribunal de Daniel não representa apenas um julgamento
individual, mas a demonstração pública da justiça de Deus diante de todo o
Universo.
O que em Jó aparece como um
concílio celestial torna-se, em Daniel, uma descrição explícita do tribunal
divino.
Jó compreendeu que seu caso precisava chegar
ao Céu
Embora desconhecesse a reunião
descrita no prólogo do livro, Jó intuía que sua causa somente poderia ser
resolvida diante do próprio Deus. Ao longo de seus discursos, ele manifesta
repetidamente o desejo de comparecer perante o tribunal divino.
"Mas eu falaria ao
Todo-Poderoso e queria defender a minha causa perante Deus" (Jó 13:3). Mais
adiante afirma: "Ainda que ele me mate, nele esperarei; contudo defenderei
os meus caminhos diante dele... isto será também a minha salvação" (Jó
13:15-16).
Em outro momento, Jó expressa um
dos maiores anseios registrados nas Escrituras: "Quem me dera saber onde o
poderia achar! Então me chegaria ao seu tribunal. Exporia ante ele a minha
causa e a minha boca encheria de argumentos" (Jó 23:3-4). Sua confiança
era extraordinária. "Saberia as palavras com que me responderia... Ali o
reto pleitearia com ele, e eu me livraria para sempre do meu juiz." (Jó
23:5-7)
No encerramento de sua defesa, Jó
praticamente assina um documento jurídico. "Oh! Quem me dera um que me
ouvisse!... Eis aqui a minha defesa assinada!" (Jó 31:35). Ele declara que
apresentaria seu documento ao próprio Deus "como um príncipe" (Jó
31:37), linguagem que retrata a confiança de alguém convencido de que, diante
do verdadeiro Juiz, sua causa seria finalmente compreendida.
John Hartley observa que a
estrutura literária desses discursos reproduz diversos elementos de processos
judiciais do antigo Oriente Próximo. Jó entende que o julgamento realizado
pelos homens é insuficiente. Seu apelo dirige-se ao mais alto tribunal do Universo.
Um Mediador entre Deus e os homens
Enquanto deseja comparecer diante
do tribunal celestial, Jó reconhece uma dificuldade. Como um ser humano poderia
defender sua causa diante do Deus infinito? Essa angústia aparece de maneira
emocionante em Jó 9. "Porque ele não é homem como eu, a quem eu responda,
vindo juntamente a juízo." (Jó 9:32)
Então surge um dos maiores
anseios do Antigo Testamento. "Não há entre nós árbitro que ponha a mão
sobre nós ambos." (Jó 9:33). A palavra utilizada descreve alguém que atua
como mediador, árbitro ou conciliador entre duas partes.
Ao longo do livro, esse desejo
torna-se cada vez mais intenso. Em Jó 16:19 ele declara: "Já agora a minha
testemunha está no céu." Pouco depois afirma: "Eu sei que o meu
Redentor vive." (Jó 19:25). Essas duas declarações mudam completamente o
tom da narrativa. Jó deixa de procurar apenas um julgamento. Agora ele espera
encontrar Alguém que fale em seu favor diante do tribunal celestial.
Richard Davidson observa que o
desenvolvimento da esperança de Jó caminha da necessidade de um árbitro para a
confiança em um Redentor vivo que representará sua causa perante Deus. Para
Ángel Manuel Rodríguez, essa progressão prepara uma das mais belas antecipações
veterotestamentárias da mediação de Cristo.
O tribunal celestial e o santuário de Hebreus
O Novo Testamento identifica
claramente o local onde Cristo exerce esse ministério. A Epístola aos Hebreus
declara que Jesus é "ministro do santuário e do verdadeiro tabernáculo que
o Senhor erigiu, não o homem" (Hebreus 8:2).
Pouco depois afirma que o
santuário terrestre era apenas figura do verdadeiro. Finalmente conclui que
Cristo "entrou no próprio céu, para agora comparecer, por nós, diante de
Deus" (Hebreus 9:24).
Essas expressões estabelecem uma
ligação notável com o livro de Jó. O local onde os filhos de Deus comparecem
diante do Senhor é o mesmo lugar onde Cristo ministra em favor da humanidade. O
tribunal celestial apresentado por Jó corresponde ao santuário celestial
desenvolvido na Epístola aos Hebreus.
Roy Gane observa que Hebreus une
duas imagens veterotestamentárias frequentemente estudadas separadamente: o
templo e o tribunal. O santuário celestial não é apenas o lugar da adoração
divina; é também o centro administrativo do governo moral do Universo, onde
Deus manifesta Sua justiça e Sua misericórdia.
O Advogado que Jó esperava
O Novo Testamento revela
finalmente a identidade daquele Mediador aguardado pelo patriarca. "Se
alguém pecar, temos Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo." (1 João
2:1) João utiliza linguagem jurídica semelhante à encontrada em Jó. Cristo é
apresentado como Advogado. Hebreus o apresenta como Sumo Sacerdote. Daniel o
descreve comparecendo diante do Ancião de Dias.Jó o aguardava como Árbitro,
Testemunha e Redentor. Todas essas imagens convergem para a mesma realidade.
Aquele cuja presença Jó apenas
vislumbrou tornou-se plenamente conhecido em Jesus Cristo. Ele representa os
seres humanos diante do tribunal celestial, não apenas como advogado, mas
também como aquele que ofereceu Sua própria vida em favor daqueles que
representa.
O drama iniciado no concílio de
Jó encontra, assim, sua resposta no ministério sacerdotal de Cristo. O tribunal
do Céu não é apenas o lugar onde Deus julga; é também o lugar onde o Salvador
intercede. Aquele diante de quem comparecem os representantes do Universo é o
mesmo que providenciou um Representante para a humanidade caída. Essa é a grande
esperança que atravessa toda a Bíblia: o Juiz do Universo é também o Deus que
proveu um Advogado, um Mediador e um Redentor para todos os que confiam nEle.
Conclusão
O livro de Jó, o primeiro livro
escrito nas Escrituras Sagradas, traz os fundamentos de toda a revelação – o grande
conflito, a figura de um inimigo opositor, a existência de um Criador e
administrador do universo; a realidade de um tribunal celestial; e a
esperançosa realidade de um intercessor, um mediador e advogado entre Deus e os
humanos, que é o nosso Senhor Jesus Cristo.
Não perca as esperanças. Seja
como Jó, consciente de que apesar dos sofrimentos, fatalidades e catástrofes
desse mundo, existe uma estrutura celestial trabalhando em nosso favor. Creia
nisso!

Toppppp como sempre!
ResponderExcluir