sábado, 6 de dezembro de 2025

RUTE E BOAZ - Uma União Incomum

 

Os procedimentos do go'el (resgatador ou redentor familiar) que Boaz assume em relação às terras de Noemi são descritos principalmente em Levítico 25:23-28 e estão intrinsecamente ligados também às leis do levirato em Deuteronômio 25:5-10. O caso de Rute combina ambos os princípios.

 1. Redenção de Terras (Levítico 25:23-28)

Este é o texto central que estabelece a obrigação do go'el em resgatar terras familiares perdidas devido à pobreza:

 "A terra não se venderá em perpetuidade, porque a terra é minha; pois vós sois estrangeiros e peregrinos comigo. Portanto, em toda a terra da vossa possessão, concedereis o resgate da terra. Se teu irmão empobrecer e vender alguma parcela da sua possessão, então virá o seu resgatador, seu parente mais chegado, e resgatará o que seu irmão vendeu." (Levítico 25:23-25).

Princípios-chave:

   A terra pertence a Deus e é um patrimônio familiar inalienável.

   Se um israelita, por pobreza, vender parte de sua terra, um parente próximo (go'el) tem o dever de resgatá-la (comprá-la de volta) para que permaneça no clã.

   O texto detalha ainda os cálculos baseados no tempo até o próximo Jubileu (vs 26-28).

No caso de Noemi, Elimeleque (o marido) provavelmente vendeu ou perdeu o direito sobre suas terras em Belém ao emigrar para Moabe. Com a morte dele e de seus filhos, a responsabilidade de resgatar aquela terra para restituí-la à família recaía sobre o parente mais próximo. Boaz, como go'el, cumpre esse papel (Rute 4:3-4, 9).

2. A Conexão com a Lei do Levirato (Deuteronômio 25:5-10)

O caso em Rute é complexo porque envolve terra e linhagem. Apenas resgatar a terra não resolveria totalmente o problema da família de Elimeleque, pois seus filhos estavam mortos e não havia herdeiro. Por isso, Boaz associa a redenção da terra ao casamento levirático:

"Se irmãos morarem juntos, e um deles morrer sem deixar filho, a mulher do falecido não se casará com homem estranho, de fora; seu cunhado estará com ela, e a tomará por mulher, fazendo a obrigação de cunhado. O primogênito que ela der à luz sucederá ao nome do irmão falecido, para que o seu nome não se apague em Israel." (Deuteronômio 25:5-6).

Aplicação em Rute:

A lei do levirato menciona especificamente "irmãos" morando juntos. Rute não era cunhada de Boaz (ela era viúva do filho de Noemi), e Boaz não era irmão de Elimeleque, mas um parente mais distante. No entanto, a prática e o princípio do levirato (preservar o nome e a herança de um homem morto) parecem ter sido ampliados na tradição israelita para incluir outros parentes, como vemos no caso de Rute. Isso é evidenciado pelo fato de o "parente mais próximo" entender que aceitar o papel incluía casar-se com Rute (Rute 4:5-6).

Boaz, portanto, combina as duas leis: como go'el, ele resgata a terra (Levítico 25), e como resgatador familiar ampliado, ele assume o dever levirático de suscitar um herdeiro para o falecido (o princípio de Deuteronômio 25).

 Síntese do Procedimento Legal de Boaz (Rute 4)

1.  Identificação do direito e da prioridade: Boaz primeiro aborda o parente mais próximo (o go'el com prioridade) diante das testemunhas (os anciãos) (cumprindo a exigência de publicidade e ordem legal).

2.  Oferta pública da terra para resgate: Boaz informa ao parente que Noemi está vendendo a terra de Elimeleque e que ele, como parente mais próximo, tem o primeiro direito de resgate (Levítico 25:25).

3.  Associação da terra com a obrigação levirática: Boaz então acrescenta a condição: no dia em que resgatar a terra, também deve tomar Rute, a moabita, viúva do falecido, para "suscite o nome do falecido sobre a sua herança" (Rute 4:5). Isso reflete o princípio de Deuteronômio 25:6.

4.  Transferência do direito: O parente mais próximo recusa, pois isso ameaçaria sua própria herança. Ele então transfere simbolicamente seu direito de resgate (e dever) a Boaz através do ato de "tirar o sapato" (um ritual público de cessão de direitos, como explicado em Rute 4:7-8 e baseado no princípio de Deuteronômio 25:7-9).

5.  Confirmação pública: Boaz declara publicamente perante as testemunhas que está resgatando todas as posses de Elimeleque, Quiliom e Malom, e que toma Rute por mulher para perpetuar o nome do falecido (Rute 4:9-10). Os anciãos e o povo abençoam o ato e o confirmam como testemunhas (v. 11).

 Conclusão

Portanto, o procedimento do go'el que Boaz assume está enraizado na Torah:

A redenção da terra é ordenada em Levítico 25:23-28.

 O princípio de preservar o nome e a herança do falecido através do casamento com a viúva é ordenado em Deuteronômio 25:5-6.

O livro de Rute mostra como essas leis eram aplicadas e adaptadas na vida comunitária israelita, com um fiel go'el (Boaz) cumprindo não apenas a letra, mas também o espírito redentor da lei, assegurando justiça social, restauração familiar e continuidade da linhagem – temas centrais que apontam, numa leitura cristã, para a obra redentora de Cristo.


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