Os procedimentos do go'el (resgatador ou redentor familiar) que Boaz assume em relação às terras de Noemi são descritos principalmente em Levítico 25:23-28 e estão intrinsecamente ligados também às leis do levirato em Deuteronômio 25:5-10. O caso de Rute combina ambos os princípios.
1. Redenção de Terras
(Levítico 25:23-28)
Este é o texto central que estabelece a obrigação do go'el
em resgatar terras familiares perdidas devido à pobreza:
"A terra não se
venderá em perpetuidade, porque a terra é minha; pois vós sois estrangeiros e
peregrinos comigo. Portanto, em toda a terra da vossa possessão, concedereis o
resgate da terra. Se teu irmão empobrecer e vender alguma parcela da sua possessão,
então virá o seu resgatador, seu parente mais chegado, e resgatará o que seu
irmão vendeu." (Levítico 25:23-25).
Princípios-chave:
A terra pertence a
Deus e é um patrimônio familiar inalienável.
Se um israelita,
por pobreza, vender parte de sua terra, um parente próximo (go'el) tem o dever
de resgatá-la (comprá-la de volta) para que permaneça no clã.
O texto detalha
ainda os cálculos baseados no tempo até o próximo Jubileu (vs 26-28).
No caso de Noemi, Elimeleque (o marido) provavelmente vendeu
ou perdeu o direito sobre suas terras em Belém ao emigrar para Moabe. Com a
morte dele e de seus filhos, a responsabilidade de resgatar aquela terra para
restituí-la à família recaía sobre o parente mais próximo. Boaz, como go'el,
cumpre esse papel (Rute 4:3-4, 9).
2. A Conexão com a Lei do Levirato (Deuteronômio 25:5-10)
O caso em Rute é complexo porque envolve terra e linhagem.
Apenas resgatar a terra não resolveria totalmente o problema da família de
Elimeleque, pois seus filhos estavam mortos e não havia herdeiro. Por isso,
Boaz associa a redenção da terra ao casamento levirático:
"Se irmãos morarem juntos, e um deles morrer sem deixar
filho, a mulher do falecido não se casará com homem estranho, de fora; seu
cunhado estará com ela, e a tomará por mulher, fazendo a obrigação de cunhado.
O primogênito que ela der à luz sucederá ao nome do irmão falecido, para que o
seu nome não se apague em Israel." (Deuteronômio 25:5-6).
Aplicação em Rute:
A lei do levirato menciona especificamente "irmãos"
morando juntos. Rute não era cunhada de Boaz (ela era viúva do filho de Noemi),
e Boaz não era irmão de Elimeleque, mas um parente mais distante. No entanto, a
prática e o princípio do levirato (preservar o nome e a herança de um homem
morto) parecem ter sido ampliados na tradição israelita para incluir outros
parentes, como vemos no caso de Rute. Isso é evidenciado pelo fato de o
"parente mais próximo" entender que aceitar o papel incluía casar-se
com Rute (Rute 4:5-6).
Boaz, portanto, combina as duas leis: como go'el, ele
resgata a terra (Levítico 25), e como resgatador familiar ampliado, ele assume
o dever levirático de suscitar um herdeiro para o falecido (o princípio de
Deuteronômio 25).
Síntese do
Procedimento Legal de Boaz (Rute 4)
1. Identificação do
direito e da prioridade: Boaz primeiro aborda o parente mais próximo (o go'el
com prioridade) diante das testemunhas (os anciãos) (cumprindo a exigência de
publicidade e ordem legal).
2. Oferta pública da
terra para resgate: Boaz informa ao parente que Noemi está vendendo a terra de
Elimeleque e que ele, como parente mais próximo, tem o primeiro direito de
resgate (Levítico 25:25).
3. Associação da
terra com a obrigação levirática: Boaz então acrescenta a condição: no dia em
que resgatar a terra, também deve tomar Rute, a moabita, viúva do falecido,
para "suscite o nome do falecido sobre a sua herança" (Rute 4:5).
Isso reflete o princípio de Deuteronômio 25:6.
4. Transferência do
direito: O parente mais próximo recusa, pois isso ameaçaria sua própria
herança. Ele então transfere simbolicamente seu direito de resgate (e dever) a
Boaz através do ato de "tirar o sapato" (um ritual público de cessão
de direitos, como explicado em Rute 4:7-8 e baseado no princípio de
Deuteronômio 25:7-9).
5. Confirmação
pública: Boaz declara publicamente perante as testemunhas que está resgatando
todas as posses de Elimeleque, Quiliom e Malom, e que toma Rute por mulher para
perpetuar o nome do falecido (Rute 4:9-10). Os anciãos e o povo abençoam o ato
e o confirmam como testemunhas (v. 11).
Conclusão
Portanto, o procedimento do go'el que Boaz assume está enraizado
na Torah:
A redenção da terra é ordenada em Levítico 25:23-28.
O princípio de
preservar o nome e a herança do falecido através do casamento com a viúva é
ordenado em Deuteronômio 25:5-6.
O livro de Rute mostra como essas leis eram aplicadas e
adaptadas na vida comunitária israelita, com um fiel go'el (Boaz) cumprindo não
apenas a letra, mas também o espírito redentor da lei, assegurando justiça
social, restauração familiar e continuidade da linhagem – temas centrais que
apontam, numa leitura cristã, para a obra redentora de Cristo.

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