terça-feira, 23 de dezembro de 2025

A ORDEM DE EXTERMINAR PESSOAS NO ANTIGO TESTAMENTO

 Esta é uma das questões mais difíceis e profundamente perturbadoras da Bíblia, exigindo uma abordagem cuidadosa, respeitosa e multifacetada. A ordem de "anátema" (חֵרֶם, herem) – destruição total – contra os amalequitas (e, em outros contextos, contra certas cidades cananéias) não pode ser entendida de forma isolada, mas deve ser examinada dentro de uma estrutura teológica, histórica e moral mais ampla. Abaixo, apresento um estudo amplo que reúne os principais argumentos e perspectivas que os estudiosos e teólogos têm oferecido ao longo dos séculos para abordar esse texto.

1. O Contexto da Aliança e da Justiça Retributiva Divina

A narrativa bíblica não apresenta Deus como um agente arbitrário, mas como um juiz que age dentro de um contexto específico de aliança e justiça. A ordem em 1 Samuel 15 surge dentro de um contexto de juízo acumulado. Amaleque, desde Êxodo 17, é retratado como um inimigo arquetípico do povo de Deus, atacando os mais vulneráveis (os fracos e cansados) na retaguarda durante o êxodo. Essa ação não era uma simples guerra territorial, mas um ataque traiçoeiro contra o próprio ato redentor de Deus. 

Portanto, o herem contra Amaleque é apresentado como um cumprimento de um julgamento divino adiado por gerações (Êxodo 17:14-16; Deuteronômio 25:17-19). Deus, como soberano moral do universo, reivindica o direito de executar juízo contra o que é entendido como mal coletivo e incorrigível. A questão central não é a guerra em si, mas o fato de que Deus está usando Israel como seu instrumento de juízo em um momento e lugar específicos, um conceito que a Bíblia chama de "guerra sagrada" ou "guerra de Yahweh".

2. A Questão da Corrupção Cultural e Religiosa Radical (O Perigo da Sincretismo)

Um argumento central, especialmente baseado nos livros de Deuteronômio e Josué, é o perigo existencial de contaminação religiosa e moral. As culturas cananéias, conforme retratadas pela arqueologia e pelos textos bíblicos (e confirmadas por fontes extrabíblicas como os arquivos de Ugarit), praticavam rituais que incluíam prostituição cultual, sacrifício de crianças (oferecendo filhos ao deus Moloque), magia e adivinhação intensivas, e uma visão de mundo profundamente idolátrica e violenta. A preocupação divina, expressa em textos como Deuteronômio 7 e 20, não era genocídio étnico, mas extirpação de um sistema religioso-moral canceroso. 

A ordem radical visava proteger a identidade e a pureza da aliança israelita, que estava destinada a ser o veículo para a redenção universal (Gênesis 12:3). A presença contínua desses povos, como a história subsequente de Israel prova (Juízes, Reis), levou de fato a uma constante apostasia e à adoção dessas práticas abomináveis. A ordem do herem, portanto, era uma medida cirúrgica e radical para preservar a linha genealógica e espiritual através da qual o Messias viria.

A menina cativa israelita na casa de Naamã, o capitão do exército da Síria (2Sm 5:1-14) demonstra a influência de uma única criança sobre uma família pagã. Aqui o testemunho e influência dessa menina foi para a salvação de uma família inteira. Mas no caso dos pagãos, especialmente mulheres e meninas podiam influenciar para práticas perversas e a idolatria.

3. A Natureza do "Anátema" (Herem) como Devoção Total, Não como Genocídio Étnico

É crucial entender o termo herem. Ele não denota primariamente "extermínio", mas "consagração ao banimento" ou "coisa dedicada". Algo posto sob herem era removido irrevocavelmente da esfera humana comum e consagrado a Yahweh, muitas vezes pela destruição. Isso tinha um duplo propósito:

 1) Impedir o saque e o enriquecimento pessoal (motivo pelo qual Saul foi punido por poupar o gado), mantendo o foco no ato como julgamento divino, não como pilhagem; 

2) Simbolizar uma separação absoluta do mal. A linguagem hiperbólica ("homens, mulheres, crianças") é um modo de expressão semita comum para indicar a totalidade e a seriedade do julgamento, sem necessariamente implicar que cada indivíduo foi morto fisicamente em todos os casos (a história posterior mostra cananeus ainda presentes, indicando que o herem foi mais um ideal teológico do que um relato etnográfico literal em alguns casos). O ponto teológico é que toda a entidade social—sua cultura, sua economia, sua continuidade familiar—estava sob julgamento.

4. A Perspectiva da Soberania Divina sobre a Vida

Este é o argumento mais teologicamente desafiador. A Bíblia apresenta Deus como o dador da vida e, portanto, como o único com o direito de decretar seu fim. Este é um princípio que transcende a compreensão humana limitada da justiça. Do ponto de vista bíblico, toda vida humana é sustentada por Deus, e seu término, seja por doença, desastre natural ou guerra, está sujeito à sua soberania permissiva ou ativa. O herem seria então uma instância específica e rara onde Deus, como autor da vida, ordena diretamente seu fim como juízo. Isso não "justifica" moralmente o ato por padrões humanos, mas o coloca em uma categoria única de ação divina direta, que os humanos não têm autoridade para imitar. É Deus reivindicando o que sempre foi seu: autoridade sobre a vida e a morte.

5. O Desenvolvimento da Revelação Cristã (A Perspectiva Cristocêntrica)

Para os cristãos, a leitura destes textos deve passar pela lente de Jesus Cristo. O Antigo Testamento narra a longa e complexa pedagogia de Deus com uma humanidade caída, em um contexto cultural de violência extrema. As ações de Deus no Antigo Testamento são provisórias e contextuais, parte de um processo educativo que culmina na auto-revelação definitiva em Cristo. Em Jesus, vemos o caráter de Deus plenamente revelado: um Deus que sofre a violência na cruz, em vez de infligí-la. O comando do herem não é a palavra final sobre o caráter de Deus. É um momento sombrio dentro de um arco maior de redenção. Alguns teólogos argumentam que Israel, em sua imaturidade espiritual, pode ter atribuído a Deus ordens que refletiam sua própria compreensão limitada da justiça divina. Outros veem nisso um julgamento histórico literal, mas que aponta para um julgamento final e escatológico muito maior, onde Deus finalmente erradicará o mal de uma vez por todas—um ato que, novamente, é sua prerrogativa exclusiva.

6. O Testemunho Interno: A Própria Bíblia Luta com Esses Textos

É significativo que a própria tradição bíblica mostre tensão em relação a essas narrativas. O livro de Jonas é um contraponto direto: Deus envia um profeta para salvar uma cidade inimiga cruel (Nínive, capital da Assíria), e Ele demonstra misericórdia quando eles se arrependem. O próprio 1 Samuel 15 é uma crítica interna: o capítulo não celebra a destruição, mas a usa como pano de fundo para condenar Saul por sua desobediência parcial. O foco narrativo está na falha moral do líder israelita, não no triunfo militar. Jesus, no Novo Testamento, expande radicalmente o mandamento de amar até mesmo os inimigos (Mateus 5:44), estabelecendo uma ética que transcende completamente a lógica do herem para a comunidade da nova aliança.

7. O conceito do Juízo sobre as nações e a humanidade

A tomada da terra de Canaã e a expulsão dessas nações eram um juízo de Deus sobre elas. Em Gênesis 15:16 já afirma que a destruição dos cananeus só ocorreria quando a medida da iniquidade estivesse completa. Isso sugere um acúmulo histórico de culpa e um limite estabelecido pela justiça divina. A narrativa bíblica insiste que Deus é longânimo, mas também justo, e que o juízo, quando ocorre, é resultado de um processo prolongado, não de capricho divino.

O juízo Divino havia chegado àquelas nações. Israel era orientado a retirar as nações da terra e somente depois, sob a resitência delas em não sair, deveriam ser exterminadas. Essa questão deve ser entendida à luzo do conceito do Grande Conflito. Haviam forças espirituais agindo nessas nações e pessoas. Quando havia resistência, ou Israel seria exterminado, ou se exterminava o mal.

Assim, em última instância, as guerras eram um juízo Divino sobre o mal que se recusava reconhecer o bem e a justiça representdas na nação e religião de Yahweh.

Conclusão Reflexiva:

Não existe uma resposta simples que remova totalmente o incômodo moral. Os argumentos acima não são justificativas para a violência humana contemporânea—a Bíblia mesma proíbe isso. Eles são tentativas de entender um texto que pertence a um mundo moral e teológico distante. 

O texto de 1 Samuel 15 nos força a confrontar a soberania inescrutável de Deus, a gravidade do pecado como uma força cultural destrutiva, e a natureza progressiva da revelação divina. Ele nos lembra que Deus lida com a humanidade onde ela está, em meio à brutalidade de sua história, enquanto a conduz, lentamente e com contratempos, para uma revelação mais plena de seu amor na cruz. 

A resposta final do cristão não está em defender teoricamente cada ação do Antigo Testamento, mas em reconhecer que a plena imagem de Deus—e, portanto, o padrão definitivo para entender até mesmo seus atos mais sombrios no Antigo Testamento—é encontrada em Jesus Cristo, que ordena que amemos nossos inimigos e morra por eles. Esse é o ponto final a partir do qual toda a narrativa bíblica deve ser reinterpretada.


Nenhum comentário:

Postar um comentário