A fortaleza cananeia dos jebuseus
Poucos lugares na história bíblica concentram tamanha densidade histórica, teológica e simbólica quanto o antigo monte onde hoje se encontra Jerusalém. Antes de se tornar capital de Israel, centro do culto e símbolo escatológico, essa colina foi conhecida como Jebus, habitada por povos cananeus e marcada por episódios decisivos da revelação divina. A história de Jebus e do Monte Moriá revela que a escolha de Jerusalém não foi casual, mas progressiva, intencional e profundamente teológica.
Jebus e sua localização estratégica
Jebus era o nome associado à cidade ocupada pelos jebuseus, um grupo cananeu mencionado nas listas étnicas do Antigo Testamento. A cidade localizava-se numa crista montanhosa entre o vale do Cedrom e o vale do Tiropeom, protegida naturalmente por desníveis profundos e abastecida pela fonte de Giom. Essa topografia fez de Jebus uma das fortalezas mais difíceis de conquistar na região montanhosa de Canaã.
Estudos clássicos de arqueologia bíblica, como os de Kathleen Kenyon e, mais recentemente, Amihai Mazar, demonstram que Jerusalém possuía ocupação contínua desde a Idade do Bronze Médio, com sistemas defensivos sofisticados e infraestrutura hídrica avançada. Essa realidade ajuda a explicar por que a cidade permaneceu fora do controle israelita por séculos, mesmo após a conquista inicial de Canaã.
O início histórico-profético com Abraão
O primeiro grande marco teológico ligado ao Monte Moriá ocorre em Gênesis 22. Abraão é chamado por Deus a oferecer Isaque na “terra de Moriá”. Embora o texto não identifique Jerusalém explicitamente nesse momento, a tradição bíblica posterior conecta esse local ao monte onde o templo seria edificado.
Autores como Gerhard von Rad e Walter Brueggemann observam que o episódio do quase-sacrifício de Isaque estabelece Moriá como um lugar de revelação, provisão e substituição sacrificial. A experiência de Abraão transforma a geografia em teologia: o monte passa a representar o local onde Deus se revela como aquele que provê.
Essa associação não é casual, mas intencionalmente retomada em textos posteriores, criando uma linha teológica que une patriarcas, realeza e culto.
A importância teológica do Monte Moriá
O texto de 2 Crônicas 3:1 faz uma identificação decisiva: o templo de Salomão foi construído no Monte Moriá, “onde o Senhor aparecera a Davi”. Essa afirmação conecta diretamente Abraão, Davi e o culto central de Israel.
Segundo estudos de Jacob Milgrom e Gordon Wenham, o conceito bíblico de “lugar escolhido” não surge apenas por conveniência política, mas por revelação divina progressiva. Moriá torna-se o ponto onde céu e terra se encontram, onde sacrifício, intercessão e presença divina convergem.
A ocupação pagã jebuseia e o atraso da conquista
Os jebuseus mantiveram o controle da cidade durante todo o período dos juízes. O livro de Juízes indica repetidamente que Israel não conseguiu expulsá-los. A permanência jebuseia não é apenas um dado militar, mas também teológico: o lugar destinado ao templo estava, por séculos, sob domínio pagão.
Essa ocupação pagã deve ser lida com as lentes do Grande Conflito entre o bem e o mal. Era objetivo de Satanás ocultar a história de Genesis 22 e o plano da salvação descrito ali. A aliança abraâmica dentro desse plano alcança as terras de Canaã e o Monte Moriá. Eram as promessas de Deus sendo concluídas.
Comentadores como Daniel Block observam que essa demora ressalta a tensão entre promessa e cumprimento. O local escolhido por Deus estava no centro das disputas militares mas também espirituais.
As tentativas frustradas e a conquista final por Davi
Somente durante o reinado de Davi Jebus é finalmente conquistada (2 Samuel 5; 1 Crônicas 11). O texto bíblico descreve a arrogância dos jebuseus, confiantes em suas defesas naturais. Davi, porém, utiliza uma estratégia ousada, provavelmente envolvendo o sistema hídrico da cidade.
Pesquisas arqueológicas sobre túneis e canais de água em Jerusalém, analisadas por estudiosos como Ronny Reich, confirmam a existência de sistemas que poderiam ter sido explorados militarmente. A conquista marca não apenas uma vitória estratégica, mas o início de uma redefinição espiritual da cidade.
A intenção divina para o templo nesse monte
Após a conquista, Davi compra o terreno de Araúna, o jebuseu, onde constrói um altar (2 Samuel 24). O local, associado a uma praga interrompida pelo sacrifício, reforça a teologia da expiação ligada ao monte.
De acordo com estudiosos como John Walton, esse episódio prepara o caminho para o templo: o local do juízo torna-se o local da misericórdia. Salomão apenas concretiza aquilo que Deus já havia sinalizado por meio de Abraão e Davi.
O desenvolvimento de Jerusalém como cidade santa
Com o templo, Jerusalém deixa de ser apenas capital política e se torna centro espiritual de Israel. A cidade se expande, o culto se organiza e a teologia da presença divina passa a ser associada diretamente a Sião.
Salmos atribuídos a Davi e seus sucessores celebram Jerusalém como cidade de Deus, lugar do trono e da habitação divina. Autores como Brevard Childs destacam que Jerusalém assume um papel simbólico que transcende sua geografia, tornando-se modelo teológico do relacionamento entre Deus e Seu povo.
O significado dos nomes Jebus e Jerusalém
Jebus está ligado etnicamente aos jebuseus, refletindo uma identidade cananeia anterior à ocupação israelita.
Jerusalém, por sua vez, deriva do antigo nome Urusalim, atestado em textos do Oriente Próximo. O elemento “Salem” é frequentemente associado à ideia de completude ou paz, conceito que a Bíblia ressignifica teologicamente.
Com Davi, o nome Jerusalém passa a representar não apenas uma cidade, mas um ideal: o lugar onde Deus reina, onde a paz verdadeira procede da presença divina.
Conclusão
A trajetória de Jebus ao Monte Moriá, e deste à Jerusalém davídica, revela um processo histórico e espiritual cuidadosamente construído. O local escolhido por Deus atravessa séculos de domínio pagão, espera, conquista e consagração, até tornar-se o coração do culto israelita.
A Bíblia, aliada à arqueologia e à teologia acadêmica, mostra que Jerusalém não é apenas cenário da história sagrada, mas parte integrante da revelação. É o lugar onde promessa, sacrifício, realeza e presença divina convergem, transformando uma fortaleza cananeia em símbolo eterno da fé bíblica.



